segunda-feira, julho 11

'Joana D'Arc' empalidece o TCA

Havia um bom pretexto (a saga de Joana D’Arc); havia a promessa da presença de uma personagem feminina forte, marcante, versátil e bem delineada psicologicamente. Havia a experiente assinatura dramatúrgica da professora Cleise Mendes; havia a encenação de Elisa Mendes, de quem anos atrás eu vi um ótimo Lampião e Maria Bonita; havia uma produção de Vírginia Da Rin; e haveria de ter, um brinde, às consistentes construções de personagens, alcançadas pelos seis bons atores que integram o elenco.
Não obstante as indagações de muitos sobre o porquê de se escrever, montar ou mesmo ver espetáculos que abordem acontecimentos e ícones históricos, o óbvio ululante, sem dúvida, é que a História nos ensina. Seja em sua totalidade, seja em seus fatos e acontecimentos determinantes. Os gregos já sabiam disso e há mais de 20 séculos já faziam uso didático da história, através da obra dos grandes tragediógrafos, promovendo diversas reflexões em seu meio social. Negar a importância instrumental da história na arte, portanto, é duvidar da capacidade de compreensão do homem. Por isso congratulo a iniciativa da dramaturga em trazer a peito a arriscada tarefa de parir uma Joana D’Arc, sobretudo com aspirações contemporâneas.
Por outro lado esse texto de Cleise Mendes surpreende pela fraqueza e insuficiência. Não consegue, nem timidamente, dar conta de comunicar e acender aquelas questões ‘atuais’ que a dramaturga relata (no folder) estar tratando em sua peça. Não consegue, pois, transformar Joana D’arc (século XV) em uma história do século XXI, para pessoas do século XXI.
Tarefa também espinhosa e não raro cheia de armadilhas é a arte da direção. Elisa Mendes perdeu a mão no espetáculo. A despeito da falta de profundidade do texto, a diretora tratou de impossibilitar à peça qualquer alternativa de mínimo sucesso. O que se viu como resultado de sua direção de atores foi uma coletânea de descuidos, equívocos e falhas, desembocando num penoso desperdício de talentos.
Vejamos o caso de Joana D’Arc. Esta personagem ora defendida por Jussilene Santana para que alcançasse suficiência teria de ter tantos ingredientes e minudências quantos necessários fossem, para despertar no público as paulatinas facetas e estádios da campesina-menina-guerreira-livre-mulher-iluminada-sedutora-aprisionada-confusa-santa! Não é uma personagem fácil. Levada como foi, a catástrofe é inevitável! E o que se verifica é uma mistura insuportável de pieguice com um waldeville mal executado. E aí, este espetáculo que mais do que qualquer outro necessita de uma protagonista, torna-se mutilado.
B. Brecht dizia que ‘infeliz do povo que necessita de heróis’. Discordo dele! Hoje, como nunca antes, precisamos de heróis, de bons exemplos de coragem e caráter. E eu, o espectador - o único motivo do teatro - precisava escutar o conclamar tocante da donzela francesa, e após a peça, mesmo que se passassem anos, relatar aos meus filhos e netos sobre a personalidade peculiar de uma grande mártir chamada Joana D’Arc. Como espectador receptivo precisava que diante de mim, uma heroína bem entendida e bem concebida, me incitasse à coragem para ajudar a amenizar os meus problemas e os problemas do mundo! Não ouvi, não vi, nem senti. Aquela que eu vi não era Joana D’Arc. Lembrava mais uma personagem do seriado global Malhação... uma menina desinteressante, banal, chorona e estridente. Foi o que Vi. Os únicos dois momentos em que acredito na heroína, foram, ironicamente, aqueles onde a direção fez a opção pela quebra, pelo distanciamento, onde a atriz-personagem faz depoimentos ao público. Aqui está o reforço de minha convicção de que a Jussilene Santana é plenamente apta a interpretar Joana D’ Arc brilhantemente, apenas necessita ser melhor conduzida.
No tocante a construção dos outros personagens destaca-se o Promotor, interpretado por Carlos Betão, que, talentoso e competente como sempre, cria um personagem muito interessante, mas que é prejudicado seriamente pelas opções de movimentação cênica adotadas pela direção. Caio Rodrigo, na pele do Duque D’Alençon, tem interpretação sem relevo, parou na forma. Os Soldados de Jefferson Oliveira apresentam graves distúrbios de dicção, sem dúvidas decorrentes de uma desatenção vocal por parte do ator. O Conselheiro do Rei defendido por Hamilton Lima é ótimo, com destaque para a cena em que simula uma conversa com o Rei ausente (?). Já o mesmo Hamilton deixa a desejar no papel do Bispo, que aparece vacilante e débil, quando, penso, deveria ser astuto e menos doce. Com La Hire, Antonio Fábio mostra mais uma vez que tem uma notável presença de palco, uma luz peculiar, mas tem seu personagem comprometido, ao passo que a diretora não tratou de tirar-lhe certos vícios corporais e vocais. Por último, o Warwick de Widoto Áquila tem bons momentos, mas traz uma fala ‘arranhada’ e, por vezes, um certo histerismo que faz fronteira perigosa com a canastrice. No geral as relações dos personagens entre si, e entre os personagens com o público, bem como as situações dramáticas foram definitivamente prejudicadas pelas movimentações cênicas estabelecidas pela direção. E os atores poderiam ter ido muito mais além, uma vez que tivesse ocorrido uma preocupação maior com a direção de ator.
Além de ter optado por uma inábil movimentação dos atores sobre o palco, Elisa Mendes também explora de maneira pouco hábil a geografia espacial do palco no que respeita a definição dos ambientes, e o ‘desenho de cena’. Às vezes sentimos que determinado ambiente teria sua dramaticidade melhor explorada se estivesse localizado não na direita baixa, mas sim na esquerda alta e assim por diante, por exemplo. Ou então aparecem resoluções de transição de cenas escandalosamente forçadas, como, por exemplo, num momento onde o ator que faz o Promotor vê-se numa transição espacial mal formulada, forçado a improvisar e, ainda sentado em uma cadeira, arrastar-se atabalhoadamente do centro do palco à esquerda média. Para esse tipo de arranjo, não há discurso de teatro anti-realista ou moderno que o salve.
Chegando agora numa apreciação geral da relação da direção com os elementos do espetáculo, a cenografia de Zuarte não ajuda, talvez até piore o espetáculo. Não sou um daqueles que entendem que o artista tem que inventar a roda a cada novo trabalho, mas a visão espacial, plástica e semântica de Zuarte para este espetáculo é no mínimo pouco ousada, além do que, mesmo embora tendo visto vários trabalhos notáveis deste cenógrafo, começo a desconfiar que neste espetáculo ele confunde acomodação com estilo.
A iluminação de Elisa não é satisfatória. Compromete muito o espetáculo. Não ajuda na delimitação e definição dos ambientes físicos e psicológicos. As velas utilizadas como iluminação auxiliar e móvel foram uma boa opção. Mas a luz perdeu, juntamente com a cenografia, de fazer um bom trabalho. Tiveram timidez em criar, ou mesmo sugerir uma imagem inesquecível da fogueira.
A sonoplastia também com assinatura de Luciano Bahia é talvez uma das melhores coisas do espetáculo. A composição da trilha é impecável, neste item tanto Elisa quanto Luciano foram muito hábeis. Por outro lado penso que efeitos sonoros poderiam ter auxiliado no tom adequado das cenas do julgamento.
Já nos figurinos foi feita uma opção de desenho e palheta tradicionais. Pouco ousado que, se no geral das vestimentas masculinos não agridem, essa falta de ousadia no figurino da heroína ajuda a apequenar ainda mais a já inexistente presença da personagem.
Em linhas gerais o que se ver neste espetáculo Joana D’Arc é um desencontro. Um texto que já nasceu frágil e que fez rima de debilidade com uma encenação tímida, lançando a bela Jussilene Santana e CIA em ‘horas mortas’. Fui ver um espetáculo e acabei vendo um ensaio aberto.


Hedre Lavnzk Couto

Esptáculo visto em Sábado, 12 de dezembro de 2009. 20 horas. Sala do Coro do Teatro Castro Alves. Praça do Campo Grande. Salvador - Bahia.

O Homem da Tarja Pálida

Que Deus me ajude. (paro. vou à janela. respiro. tomo café. continuo.) Meus poucos amigos sabem que se escrevo sobre uma peça de teatro na mesma noite em que a vi, das duas uma: Ou gostei muito ou...
Quando alguém que não é escritor de teatro (dramaturgo) se mete a fazer o que não sabe, parindo uma bula de um Frankenstein, quando uma atriz atrapalhada e desatenta se mete a dirigir teatro e ajuda vaidosamente a materializar o monstro, quando um sujeito que tomou inadequadamente para si o título de ator se atreve a interpretar aquilo que seria um monólogo (talvez o formato cênico, depois da ópera, mais difícil de ser realizado), quando toda uma equipe de gente se junta com muita ilusão, pouca técnica e nenhuma inspiração, temos o “espetáculo” de teatro O Homem da Tarja Preta. Este é, sem dúvida alguma, o pior espetáculo que já vi. E olha que já vi muito teatro. E muita coisa ruim. Mas o que vi na noite desta sexta-feira 29, no teatro da Casa do Comércio, em Salvador, foi uma catástrofe! Que Deus nos abençoe!
O Homem da Tarja Preta é escrito pelo psicanalista Contardo Galligaris; a direção é da atriz Bete Coelho; O ator solando é Ricardo Bittencourt. Reza a lenda que Contardo e Bittencourt tiveram a idéia do espetáculo numa noitada e, em seguida a Coelho embarcou no projeto. O que se sabe mesmo, de certo, é que Contardo, um profissional com mais de trinta anos de experiência em psicanálise clinica, perdeu uma ótima chance de ter escrito um texto ao mínimo regular. Perdeu uma boa oportunidade de transformar em arte dramatúrgica os relatos dos inumeráveis pacientes que teve ao longo do tempo. Se o autor tinha por objetivo discutir as peculiaridades do universo masculino (ele mesmo diz que pretende dividir com a platéia as indagações metafísicas a respeito de “o que é um homem?” e “como é ser homem?”), e se, além disso, ele também almejava se lançar na já, tão batita, abordagem sobre as revoluções provocadas pela Internet nos diversos tipos de relações humanas, ele o fez de maneira atabalhoada e sem o menor indício de veia artística e comunicativa. Contardo produz um objeto textual opaco. No que diz respeito ao conteúdo, ele deu provas de que não possui habilidade para dar tratamento ao texto, não sabe selecionar o que precisa ser eximiamente selecionado. Deveria ter-lhe ocorrido que não se pode contar algo ao público através do mesmo método que os seus pacientes vomitam suas histórias no consultório. Um grande dramaturgo talvez lhe esclarecesse que, tal qual fazem os ruminantes diante da comida, um escritor de teatro deve encarar seu material como um suculento bolo gástrico, fermentá-lo, digeri-lo, esculpi-lo e depois lapidá-lo. Ao escritor cabe selecionar o que, quando, e como cada frase de seu texto atingirá o íntimo do espectador. E aqui já diz respeito também as questões formais. O texto de Contardo é deformado.
E não me venham com essa de que eu sou exigente demais, ou como dizem alguns, que eu não gosto de nada. Sem essa, cara pálida. Se alguém tem a cara de pau de botar um espetáculo em cartaz assinando o texto, ele que pesquise, que experimente, que encontre um jeito de fazer algo com algum valor devidamente artístico. A arte não é para todos. Vamos parar com esse papo politicamente correto de que todos são potencialmente artistas, não somos não! A prova está aí, fui ao teatro para ver um belo espetáculo, que tratasse de maneira original, séria ou divertida as famigeradas vidas virtuais nossas de cada dia, esperava mais ainda ver os nossos diversos dilemas do mundo masculino ser virtuosamente dissecados, ironizados, ampliados, desmascarados, cumpliciados, apiedados, compartilhados, humilhados. Mas nada! O que presenciei foi apenas um fedorento arroto pornofônico. O que de fato ouvi foi a palavra “PAU” ser gritada umas oitenta vezes, o delicado verbo TREPAR ser conjugado umas cento e vinte. Sofri, dormi, e superei mais de uma hora de muita babaquice.
Em teatro costuma-se dizer que um diretor ruim pode colocar um ótimo texto a perder. Fato indiscutível. Mas também se diz que um diretor preparado e empenhado pode amenizar as deficiências e inconsistências da peça escrita. A diretora (atriz!) Bete Coelho não consegue, pois, curar o texto de Contardo. Sua encenação é desastrosa. Não é fácil dirigir um monólogo – mas como dizem os baianos da gema, “se não agüenta, pra que veio?”. Trabalhar um monólogo é brigar o tempo todo contra a ameaça constante de provocar monotonia no público. Antes de tudo o diretor tem de se mostrar um bom diretor de ator, o que Bete demonstrou que não é. Bittencourt relata que eles fizeram ‘minuciosos, obsessivos e apaixonados ensaios’, perderam tempo então, porque não se nota esse processo no resultado final. Mas ainda sobre a corrida contra o fantasma da monotonia, em monólogos a direção tem de explorar bem a movimentação, ou a disposição do ator e do cenário (se este existir) sobre o palco. Isso a diretora não faz. É preciso ainda criar uma perfeita sintonia de tempo, rítmo, compasso entre as ações do ator com o trabalho de todos os elementos do espetáculo. Isso também a diretora não consegue fazer. Espetáculo de texto ruim, com direção frouxa. Valha-me, Deus!
A luz de Wagner freire é muito descarada. A sonoplastia, que poderia ter ajudado... Alguém lembra? O figurino de Rodrigo Fraga vai ganhar o Shell do descabimento, que licença poética hiperbólica é essa de colocar alguém que trabalha, de madrugada, na própria casa, usando terno, e fúnebre?! Rodrigo como sempre, é inteligente demais para meu pequeno cérebro. Agora a cenografia, ai, ai... A Flávia Pedras Soares, ex mulher de Jô Soares, quis criar um home-office de apartamento de classe média, mas o que ela fez, mesmo, foi a reconstrução daquilo que imagino se aproximar muito de um lúgubre compartimento da biblioteca de Alexandria, aquela que pegou fogo, lembra? Pois bem, não satisfeita com esse desastre visual e semântico, esta senhora ainda me inventou ter realizado a direção de arte deste monólogo. Gente... Direção de arte é uma função oriunda do cinema, presume-se qualidade, riqueza artística, precisão. Até agora eu estou procurando esta direção de arte de Flávia Soares. Oh Jô, me ajuda aí, Jô! Pedras, Pedras...
Eis que não se pode deixar de comentar o desempenho da interpretação de Ricardo Bittencourt, ator vindo de escolas e de diretores viscerais como o baiano Paulo Dourado e o paulistano Zé Celso Martinez. Ricardo que me perdoe, mas neste trabalho ele está dando um vexame de ferir de morte qualquer amante do bom teatro. Zé Celso é um gênio, mas o ator que trabalha muito com ele corre o risco de perder o norte das coisas, anoto. No palco, o personagem de Ricardo é um *bufão indigesto. E não me venham os senhores sabichões de Plantão dizer que esta foi a intenção, porque está indigesto demais para conseguir ganhar a atenção de qualquer público que tenha estômago. E igualmente não me venham falar que a tal da intenção foi incomodar e chocar mesmo a platéia, porque essa é a única função que sobrou ao teatro dito pós-moderno, do qual o Zé Celso (professor do Ricardo) é mestre e doutor em fazer e defender e arrotar. Do trabalho de Bittencourt neste monólogo, nada se salva.
E se eles dizem que ‘O Homem da Tarja Preta’ é um espetáculo sobre uma das maiores questões do mundo moderno – “Não é fácil ser homem!” – eu já digo que o fracasso e a falta de qualidade do trabalho deles, me fez refletir ainda mais sobre aquela que é, sim, uma das maiores questões do Teatro Moderno: diante de tanta coisa mal feita, sem inspiração e sem sentido artístico e intelectual, e ainda sofrendo a concorrência titânica dos meios de comunicação de massa, até quando o teatro existirá?

*Bufão: diz respeito a um tipo do mundo dos palhaços. Tem por características ser extremamente desagradável, violento e extravagante. Podendo arrotar, bufar, escarrar, urinar, cagar, se masturbar, copular, agredir os seus contracenas e mesmo, a depender do caráter da apresentação, o próprio público. (nota de Hedre)

Hedre Lavnzk Couto

Espetáculo visto em 29/01/10 em Salvador.

No Outro Lado do Mar

Ao término do espetáculo, já fora do Teatro Martim Gonçalves, um desses amigos insuportáveis perguntou-me: ‘Hedre, em que estética se enquadra essa montagem?’ E eu lhe respondi: ‘eu não sei, William. ’ Outro amigo, desses mais pacíficos, interrompeu-nos: ‘Que discussão mais besta, vocês não perceberam ainda que vivemos no teatro a época do [Misturalismo]?’ E eu, já distraído, e acendendo meu cigarro, concordei: ‘Pode ser, Yoshi!’ E ainda ali, permanecemos os três, por uns 10 minutos, elucubrando a respeito de Estética, Estilo, Método, Texto, Pureza, Sujeira, e, claro, principalmente sobre o tal do Misturalismo, descoberta nobélica do rápido amigo. Sem mais delongas...
O texto de ‘No Outro Lado do Mar’ é de autoria do angolano José Mena Abrantes. E confesso que sei pouco sobre ele e sua obra, embora já tenha lido uma outra peça sua chamada ‘Amesa’. Ao que parece, pelo pouco material que tive acesso (a peça que li e a peça que vi) o escritor tem predileção por escrever sobre o seu habitat, ou seja, sobre a sua terra angolana, sobre o Povo angolano, sua história, sua personalidade, suas vicissitudes e tragédias, seu inconsciente coletivo, o duro e belo vigor de uma identidade popular africana. Abrantes faz uma honesta tentativa de transformar os temas e personagens de seu país em sentimentos e arquétipos universais, mas, esbarra suas pretensões dramatúrgicas numa contundente falta de técnica. Temos a impressão nítida de que ele tem sensibilidade, boa capacidade de observação, de investigação e pesquisa, contudo, ainda não consegue selecionar com destreza, em meio a vasta gama de riqueza cultural humana que dispõe Angola, aquele material que de fato teria uma maior vocação dramatúrgica. Aliado a essa constatação, a deficiência técnica desse escritor fica mais visível na fragilidade formal de suas obras, para simplificar, é como se ele tivesse algo a dizer, mas, não sabe nem como dizer, nem como revelar. Por outra, falta-lhe habilidade de narrativa, falta-lhe como se diz, carpintaria dramatúrgica. Mas isso pode ser conseqüência do tempo, a prática e a dedicação e o hábito instrumentalizam os dramaturgos. Genialidade é inata, mas competência pode ser adquirida.
No Outro Lado do Mar é um texto ruim. É um vomitório agonizante. Tanto é que se vocês me indagarem a sinopse ou o argumento, me perguntarem qual é a história que a peça conta, não saberia responder. Alguns poderão me dizer, ‘mas essa é uma característica dos textos contemporâneos, que usam e abusam da fragmentariedade e entrelaçamento dos diálogos, que confundem tempo e espaço, que não tem compromisso com narrativa linear, que o expressionismo, o surrealismo, principalmente os cinematográficos, enterraram de vez as lições de “A Poética” de Aristóteles. Que Abrantes é um visionário e eu um conservador.’ Mas este não é o caso, o texto em si é fraco, justificadamente até, dada a atecnia dramatúrgica do autor. Em suma , o texto de No Outro Lado do Mar é uma almôndega confusa e mórbida, recheada de lamentos que não conseguem alcançar os nossos apressados ouvidos ocidentais.
E meus amigos, quando o texto é ruim, a direção tem de destruir o frágil primeiro autor e se transformar num novo e melhor autor: o nome disso é encenação. Este foi o ato humano que não existiu. A direção de No Outro Lado do Mar é da diretora Suelma Costa. Uma direção apagada, tímida e conivente com as fragilidades do dramaturgo. Ela devia ter assumido a responsabilidade, a coragem de estuprar o autor, mexer no conteúdo, na narrativa, na intensidade, na cor e na distribuição dos diálogos, na qualidade dos personagens, criar sua própria linguagem visual, enfim, se fazia necessária uma reescritura cênica, a diretora não a fez. Faltou-lhe personalidade e coragem para assumir uma postura de poeta criadora de metáforas, ela se contentou em ser uma mera repetidora do dramaturgo. E aqui posso eu aproveitar um pouco daquela discussão do ‘Misturalismo’. Acho que tem dois tipos disso: Primeiro o Misturalismo desempenhado por uma direção que conhece bem diferentes correntes e estilos teatrais, e a depender do objeto cênico que se está construindo, verificar se é bem vinda a mixagem de tendências, se for o caso realizando-a. Isso quando feito por quem conhece e sabe fazer, o resultado é satisfatório. Segundo, há o mituralismo de quem não sabe de onde vem o vento e nem pra onde ele vai, ou seja, aquela direção que mescla tudo, sem conhecer nada e, faz o já citado por mim, samba do maneca cego. Dito isto, quero ressaltar que a direção fez uma opção que me chamou a atenção especialmente: uma vez a peça levada no Teatro Martim Gonçalves, palco a italiana, cena frontal, a diretora preferiu, certamente numa tentativa de conferir ares de espetáculo de estética experimental, bem como deixar o público mais próximo à ação, estabelecer a platéia em cima do palco, no formato FERRADURA (algo parecido com uma semi-arena) circundando a zona cênica. Contudo a despeito dessa aproximação física, os atores-personagens agiam como se existisse uma espessa quarta parede, fulminando a intenção de proximidade (imagino eu não só física) com o público. A idéia teria sido pelo menos coerente, se a encenação tivesse abdicado da quarta parede. Bom, esse é um exemplo clássico do misturalismo, quando se mistura coisas sem prever ou perceber o prejuízo do ato impensado. A diretora trilhou o errôneo caminho do texto, e assim, no geral manteve-se bem apática quando a concepção e coordenação dos demais elementos constitutivos do espetáculo. O mais curioso é que Suelma Costa é aluna diretora formanda pela Escola de teatro da UFBA, e teve como orientador o eminente professor Dr. Gláucio Machado. Há algo de capenga no reino do Canela. E ainda acham ruim quando eu digo que a Escola de Teatro da UFBA acabou. Mas vamos em frente...
O cenário da própria Suelma Costa e da Ana Maia Soares, trata-se , pelo menos tive essa impressão, de uma superfície coberta de areia, uma praia ou algo do gênero. Tal cenário tornou-se praticamente supérfluo pela forma como é trabalhado pela luz, pela opção da platéia disposta em FERRADURA e pelas marcações e movimentações impressas pela direção. Devo dizer, que uma das coisas mais difíceis em teatro é encenar nestes formatos de arena, semi-arena, ferradura e Black bloxe. Por vezes é melhor fazer só o que se sabe, já me dizia um diretor alemão. A iluminação de Aldren Lincoln e Everton Machado, no todo aberta, é muito deficiente. Poderiam ter optando por uma luz expressionista, fechando mais, recortando o palco entre ambientes oníricos e outros crus, o resultado talvez tivesse sido melhor. O figurino da direção e do elenco, é insignificante. A trilha sonora é roliudiana.
No tocante à interpretação, sempre acho que os personagens que vejo no palco são em boa parte o reflexo da capacidade de dirigir ator, por parte dos diretores. Pode parecer uma frase de lugar comum, mas esse detalhe técnico faz toda a diferença. Ana Maria Soares, num ou noutro momento, conseguiu me causar interesse em cena. Possuindo uma dramaticidade latente, sentia que por vezes aflorava algo que vinha de suas entranhas, mas isso por poucos segundos, e logo aparecia o geral dessa sua atual performance, que é ainda muito aquém do que ela pode fazer. Eu confesso que quero trabalhar com Ana Maria um dia desses. Everton Machado não conseguiu me causar interesse em momento algum. Eu não sei qual o problema de Everton, se ele é sempre azaradamente mal dirigido ou se ele precisa estudar-praticar mais. Percebo que ele tem vontade, percebo que ele gosta do que faz, acho que melhorará muito no dia em que trabalhar com um bom diretor de ator. Eu sentirei muito prazer ainda em escrever bem sobre Everton, e não tenho dúvida que ele me dará essa oportunidade. Essa investigação vocal que Daiane Leal e Heloisa Jorge fizeram conferiu ao personagem do Machado uma voz (ou como diria a fonoaudióloga Ana Ribeiro em sua distinção voz para atores e falas para personagens) uma fala robotizada, insegura por mal trabalhada, de um volume oco e não humano certamente. A investigação corporal com Aldren Lincoln também não ajudou. Os atores conceberam partituras corporais muito retas e simplórias para seus personagens, fragilizando-os mais ainda.
No Outro Lado Mar é uma bela frase. E sinceramente acho que pode ser melhorado como espetáculo. O autor diz na peça que ‘a intimidade é a morte dos sentimentos’, não acredito nisso não. A intimidade é a melhor coisa que pode acontecer aos sentimentos. Aliás, os sentimentos só podem mesmo surgir com a intimidade. Por outro lado acredito que a vaidade e a incapacidade de ouvir nos torna pessoas bem menos interessantes.

Espetáculo de Formatura em direção teatral de Suelma Costa, orientado por Gláucio Machado

visto no teatro Martim Gonçalves, ETA-UFBA, canela

última sexta feira de fevereiro de 2010.

Hedre Lavnzk Couto

sexta-feira, novembro 5

Ele esperou vinte anos,

'A Suprema Felicidade' é surpreendentemente ruim. Porém, com um vasto material, prato cheio para uma reflexão a respeito de, como diz o diálogo, "a importância de descobrirmos quem somos". Jabor é um obeservador tenaz, um realizador preciso... Mas neste seu atual filme, parece ter desencarnado da perspicácia daquele grande diretor que me impressionou bastante com os seus 'Eu te Amo!'; e o com o Inigualável 'Toda Nudez será Castigada', o que vi no cinema hoje foi a obra de um artista descuidado, sem intuição, relaxado. Pareceu mais um daqueles filminhos fraquinhos da filmografia do Cacá Diegues! Volta Jabor!

Hedre L. Couto.

quarta-feira, agosto 25

'Zeca Camargo é minha mula’

Numa época não tão distante tinha sido ele um jovem arquiteto de talento arrebatador. Casou-se com Mal, uma mulher fascinante. E passaram a dividir entrei si não apenas o carinho de um pequeno casal de filhos, mas também a paixão por uma inusitada técnica que lhes permitia adentrar por profundas experiências oníricas. Havia entre eles um amor de tal grandeza que o mundo real não mais lhes bastava. Precisavam de um lugar próprio, de um mundo particular. Aperfeiçoaram então suas técnicas, e tornaram-se obcecados pela idéia de abandonar a realidade, e entregaram-se à rotina de adormecer e se auto induzirem ao mundo dos seus sonhos. Lá, formaram um casal de deuses, criaram e materializaram mares, ilhas, cidades com avenidas ladeadas por arranha-céus improváveis e casas resgatadas das memórias de suas infâncias, tinham quais e quantas profissões quisessem, realizavam as viagens que desejavam, podiam controlar o clima e o tempo, eram senhores de sua felicidade, um mundo onírico confusamente mais real do que o real, projetado com a força do pensamento.
Porém, quando despertavam de volta ao mundo real, este já não parecia tão real, de modo que o mundo que criaram dentro dos sonhos parecia ser mais coerente, mais palpável, desejável. Com o passar do tempo Mal perdeu o controle e tornou-se dependente das imersões oníricas. Lançava-se nos sonhos e de lá não mais queria sair. Dom percebeu que a obsessão da esposa progredia perigosamente. Num dos sonhos, Mal se recusava a voltar para a ‘superfície’ e passaram tanto tempo sonhando e vivendo naquele mundo, que ambos acabaram mergulhando num nível mais profundo chamado – Limbo, onde chegaram a viver toda uma vida, envelhecendo juntos. À medida que se demoravam em tal dimensão, aumentava-se o risco de que eles não mais conseguissem acordar, foi quando Dom resolveu que era preciso ‘plantar’ uma idéia na cabeça de Mal: induziu-a passo a passo a questionar a realidade daquele mundo que ela julgava indiscutível. Acordaram.
De volta ao mundo real, depois de tanto tempo sonhando, Mal se torna perturbada. Desenvolve a idéia fixa de que o mundo real não é real e tenta persuadir Dom da necessidade de se matarem os dois, para que assim possam despertar na verdadeira realidade. A vida do casal enlouquece, Mal afirma que os filhos não são reais, e, sim projeções de suas mentes. No dia do aniversário de casamento, numa última tentativa de convencer Dom a cometer o duplo suicídio, como esse não concorda, ela joga-se do alto de uma janela. Para puni-lo, deixa uma carta, onde afirma que vinha sofrendo ameaças do marido e que temia por sua vida. Dom torna-se o principal suspeito do crime. Foge dos EUA. Foragido, torna-se acusado, e impedido de voltar a viver com os filhos...
...Erra de continente a continente. Não é mais arquiteto nem de seus próprios sonhos. E como não lhe restando outra opção, recicla suas habilidades com o subconsciente e transforma-se numa espécie de mercenário especializado em invadir mentes alheias. Com sua equipe, presta os mais clandestinos serviços para pessoas e corporações de todo o mundo. Seu verdadeiro trabalho agora é invadir a mente de determinadas pessoas, através dos sonhos, e lá plantar sementes de idéias, o que eles e seus colegas chamam de Inserção.
Por outro lado, Dom é um completo infeliz. Trabalha com único objetivo de conseguir comprovar sua inocência e voltar para casa, voltar para os seus filhos. E, quando tal objetivo parece ser inalcançável, surge uma proposta: um poderoso magnata deseja que ele faça uma inserção na mente do herdeiro do seu maior concorrente, e lá plante a semente da idéia “não seguirei os passos do meu pai. Venderei todos os negócios.” Aparentemente, surge a grande oportunidade através da qual Dom encerrará seu exílio involuntário, só que, para realizar esta tarefa ele precisará vencer diversos desafios, e o maior deles são as lembranças de Mal, que corroem sua mente como um vírus. Além disso, ele e sua equipe precisarão ir até a perigosa zona do Limbo.
Buscando A Origem...
“Cheio de arrependimentos (...) estou esperando alguém. Alguém de um sonho esquecido (...) morro de saudades de você. Mas preciso deixar você ir. Nosso tempo já passou (...) porque você não existe. Olha só pra você, é só uma sombra (...) nos meus sonhos você ainda está viva. Mas não são sonhos, são memórias” – são algumas falas de Dom. Na busca da Origem é preciso saber que a menor semente pode crescer dentro de uma cabeça e se transformar numa idéia, que pode crescer feito um câncer e te destruir. Dom é um homem alquebrado porque plantou na própria mente a semente da idéia de uma culpa. Não se perdoa por ter iniciado Mal nas navegações da mente; menos ainda por um dia ter-lhe plantado a semente da idéia do questionamento; nem por ter sido covarde quando resistiu e não pulou daquela janela com ela. Ele só queria voltar no tempo e recuperar a vida que perdera; a mulher que amava, os filhos amados que ficaram para trás. Logo Dom que sempre quis uma vida, e através dos sonhos a projetou em sua acepção mais plena, agora não tem vida alguma, precisamente sequer existe, e teme morrer sozinho. Por telefone, o pequeno James lhe pergunta: “quando você voltará para casa, papai?” e Dom responde, - “breve, filho” – mas ele sabe que talvez nunca retorne, porque Mal mora em sua mente, e mesmo morta, está viva e causando danos como nunca, tentando ainda o convencer a abandonar tudo metendo uma bala na cabeça, para encontrá-la do outro lado. Mas entre a culpa e o amor, Dom opta por tentar voltar a ver os rostos de James e Phellipa.
Um filme jamais é feito para ser entendido, jornalista Zeca Camargo. O mais importante não é aquilo que pode ser explicado, e sim a sensação. Diante do filme que vemos na Telona, cada um de nós nos ‘identificamos’ à nossa maneira, e criamos relações, interações e projeções entre a história que está sendo narrada e as nossas próprias experiências emocionais; de forma que não precisamos ter essa obrigação falsa-inteligente de entender patavinas dentro do cinema; tão somente basta que nos permitamos que a película nos desperte algo na alma. E se nos sonhos criamos e percebemos de forma simultânea, e se a arte é um sonho, tal é o cinema.

E com certeza A Origem cumpre bem essa nobre missão. Quando se tira todo o ‘casaco de pele’ dos efeitos de computação gráfica e daquilo que eu chamo de ‘ficção onírica’, sobra um roteiro correto, com diálogos banhados com refinados toques de humor. Um elenco agradável de ver, equilibrado, trazendo Leonardo DiCaprio em performance inspirada. Além das brilhantes atuações de Cillian Marphy na pele do Robert Fischer, e da Ellen Page, encarnando a Ariadne. Entretanto, existe algo de assombroso, de impressionante neste filme, e chama-se Mairion Cotillard. Magnífica atuação! Os olhos dela interpretando a Mal é algo para se guardar na memória. A partitura corporal da Mairion criada para esta personagem é uma aula para quem pretende ou se diz ator ou atriz. A interpretação da Mairion Cotillard neste filme é um sonho de três níveis: tão cheia de complexidades quanto um sonho dentro de um sonho dentro de um sonho. Depois de ver algo assim, difícil é resistir ao Limbo! Vou embora para o Limbo. E ela acerta em todos os filmes: esteve maravilhosa e precisa na pele de Edith Piaf. Esteve deliciosa em Nine fazendo a mulher do protagonista. A música do filme não tem nada de espetacular, mas é muito competente. A direção mostrou-se muito criativa, ao eleger como toque dos chutes (momentos onde os personagens eram acordados, sincronizadamente, ao longo dos vários níveis do sonho) a música ‘Non, Je Ne Regrette Rien’, de Edith Piaf, e os versos “Non... rien de rien...Non... je ne regrette rien… Ni le bien qu'on ma fait, Ni le mal - tout ça m'est bien égal!” que vem a calhar como uma inteligente ironia para o conflito do protagonista envolto pelo sentimento da Culpa. Quanto a última imagem do filme, o objeto girando em cima da mesa, eu jamais divido escova-de-dentes. Paradoxo. 11 minutos, Tempo Real.

Dedicado a minha mãe. Porque, por mais que a ame, ainda não sou o bastante.

Hedre Lavnzk Couto.

quarta-feira, agosto 18

'Vincere'(?)

Quando uma mulher ama um homem, olha-o com olhos esbugalhados. Porque deseja engoli-lo, guardá-lo e devorá-lo dentro de seu ventre. Na cama, enrosca-se no sujeito, e, invariavelmente, tem orgasmos múltiplos. Mas não pára por aí, quando admira um homem, os sonhos e aspirações dele transmutam-se em seu próprio projeto de vida. Escuta-o, deveras entusiasmada, falar de seus ideais, de suas frustrações e de seus, sempre ridículos, desejos de dominar o mundo. Pior. Esta mulher, amando, é capaz de vender tudo que possui para financiar àquele as utopias mais irresponsáveis. Já quando preterida por outra, e renegada por ele, anula-se, enlouquece e morre.
Milão, Itália. 1914. Ida Dalser é uma bela modelo. Numa tarde, da calçada, avista no meio da multidão, em passeata, um homem que lhe desperta um sentimento arrebatador. Apaixona-se naquele instante pelo jovem e espalhafatoso Benito Mussolini. Líder do Sindicalismo, membro radical do Partido dos Trabalhadores, Benito é nesta altura um mero diretor de um ‘impresso político’. A velha Itália anda agitada, nunca fora uma Nação propriamente. Ainda carrega o fardo caótico de, historicamente, seu desenho territorial-político jamais ter configurado uma Unidade. A idéia de ‘Itália’ é novidade, neste momento o sentimento de ‘Povo Italiano’ é algo perigosamente inicial, os velhos Ducados, Pricipados, Papados e Reinos se encontram há pouco tempo sob a batuta de uma Monarquia centralizadora, e da Igreja ainda bastante influente. Experimenta-se uma incisiva Campanha Nacionalista. Quer-se transformar um mosaico cultural e lingüístico em um Povo, que ver-se forçado a abadondar seus milenares dialetos para falar o Italiano. Em paralelo, ora inventa-se parte da história, ora costura-se parte dela, exaltando-se e exumando-se os feitos dos Grandes Pais da Itália, primeiros a pensar a Unificação.
Contudo, as insatisfações e conflitos internos são em número muito superior aos bons resultados, de faixada, ostentados pela Monarquia. A máquina administrativa é falha, os impostos são exorbitantes, não se consegue produzir, há desemprego e fome. O Movimento do Proletariado cresce em força em toda a Europa. Em uma palavra, a Itália é uma bomba-relógio. E eis que explode no dia 28 de junho, com um tiro que vem de Sarajevo, que lá mata o arquiduque Francisco Ferdinando da Austria, fato estopim da Primeira Grande Guerra Mundial.
Benito Mussolini nesta data já tinha fundado seu próprio jornal, financiado pela venda dos bens da apaixonada Ida Dalser. Através das páginas de ‘Il Popolo d’Itália’ tornou-se forte o bastante para passar por cima da ala moderada do Partido Socialista, que vetava a entrada da Itália na Guerra, por considerar que a guerra jamais beneficia o trabalhador. Mussolini, todavia, já tinha força e queria o embate, organizou os Grupos de Ação Revolucionária, e em 1915 os Italianos partiram para o front. Em 1917, Mussolini retornou ferido e glorificado. Continuou editando seu Jornal e atacando de maneira cada vez mais violenta os Socialistas. Em 1919, fundou os chamados ‘Grupos de Combate’, movimento de ideologia socialista-nacionalista que pregava a abolição do Senado, a instalação de uma nova Constituinte e o controle das fábricas por operários técnicos. Em 1921, Mussolini foi eleito para o Parlamento, estava criado o Partido Nacional Fascista. Daí então a ascensão total do Duce ao poder ocorreu de maneira avassaladora. Em 1922 ele organizou uma marcha contra Roma, chantageou o Rei Vitor Emanuel, e recebeu desse, carta branca para formar um novo governo. O Parlamento, cooptado pela força do futuro ditador, conferiu-lhe plenos poderes. Em 1925, instaurou-se a Ditadura Fascista, que só chegaria ao término em 1945, com a morte de Mussolini por Fuzilamento.
Fascismo! Figuras como Benito Mussolini surgem em momentos de grandes depressões sociais e, camuflados em peles de salvadores da Pátria, de Méssias, de grandes homens que sacrificam suas vidas e suas individualidades em prol dos semelhantes e do Bem Comum, alcançam o poder e o resultado é catastrófico para seus concidadãos. Tal qual muitos outros líderes, tragamos à baila alguns populistas atuais sul-americanos - Mussolini ao revés do que muitos se deixam enganar, era antes de qualquer outra coisa um maníaco egocêntrico, movido por um projeto pessoal de poder, conta-se que ele dizia que almejava ser maior que Napoleão. A personalidade pérfida do Ditador fica evidente nos pilares e pressupostos guiadores de sua doutrina Fascista: o Regime Fascista era totalitário; ditador; o Nacionalismo preconizado, tal qual o da Alemanha, era agressivo, impulsionado pelo fetiche do militarismo, do imperialismo, pelo culto do chefe, pelo anticomunismo e pelo corporativismo. Na perseguição de sua megalomania, Mussolini instalou na Itália um regime de Partido Único, Direitos individuais dos Cidadãos passaram a ser ignorados, o Parlamento foi transformado num simples órgão consultivo, criou-se a polícia política e a oposição sofreu repressão violenta.
A histórica é cíclica, repete-se, inclusive em continentes diferentes. Muito se fala em Neo-Fascismo. Ou em análises mais corriqueiras emprega-se o termo Fascista de maneira a cunhar determinadas posturas de alguns governos ou Estados, ainda hoje deslocados da urgência da realidade democrática Global. Mas se de uma parte é evidente que o Fascismo, exatamente como ocorreu na Itália, não mais existiu, de outro tanto, podemos facilmente comprovar que em alguns Estados ou governos ainda podemos apontar muitas das práticas levadas a cabo pela doutrina de Mussolini.
Acompanhem-me a um breve passeio pelos oito anos de governo federal do PT. Antes nunca é demais lembrar, traçar paralelos históricos, no mínimo curiosos: Mussolini era líder sindical. Lula também o foi. Lula é o ícone do Partido dos Trabalhadores. Mussolini, idem. Passemos adiante: o Fascismo, desde os tempos de Mussolini tem a mania de pregar que inventou tudo; tem a mania de negar o passado explícito; para o Fascismo a história passa a existir com sua ascensão ao poder. Qualquer semelhança com a pública e notória frase do presidente do Brasil “nunca antes na história ‘destepaiz’...” é mera coincidência. O Fascismo de Mussoline fazia culto ao chefe; hoje no Brasil Lula é tão cultuado que conseguirá eleger sua substituta (uma desconhecida) no primeiro turno das Eleições. Se na máquina pública de Mussolini preponderava a corporativismo, o governo Lula foi aquele que mais aparelhou e loteou a máquina pública brasileira. À maneira do Fascismo, o PT se tornou na prática um Partido único no Brasil. Também como na Itália daqueles anos tristes, o Parlamento Brasileiro transformou-se num órgão consultivo (vide Mensalão). Da mesma forma como o fizeram os Fascistas, no Regime Petismo o Direito dos Cidadaos não são respeitados (vide quebras de singilos bancários e dados sigilosos, desde o caso do caseiro Francenildo, por ordem do ministro da Fazenda). Se os fascistas italianos perseguiam a Igreja, os petistas querem tirar os crucifixos das repartições, que lá estão pousados em harmonia nacional há séculos. Se Mussolini tinha sua polícia política, O Petismo tem a Polícia Federal e suas operações midiáticas ‘caça-pijamas’. Por tudo dito e comparado, é facilmente assimilado e comprovado, que hoje no Brasil vivemos sob um Regime de herdeiros diretos de Mussolini.

Analisando o filme ‘Vincere’...
... No geral assiste-se a um filme e verifica-se que a fotografia é extraordinária; ou quem sabe a direção de arte primorosa; o roteiro instigante; ou os diálogos vivos; os figurinos minuciosos e inventivos; a trilha sonora inspiradora; a interpretação inesquecível, a direção cuidadosa; enfim, constatar e elogiar a plenitude da concepção e execução de um ou mais elementos que constitui o objeto artístico ‘filme’ é habitual, mas o inusitado, o mais prazeroso e surpreendente é quando nos deparamos diante da grande tela com o Melhor Cinema. E melhor cinema, leitores, é ‘Vincere’! Absolutamente! É um filme digno de entusiasmo. Todos os aspectos do filme estão maravilhosamente adequados e emocionantes.
O roteiro de Daniela Ceselli e Marco Bellocchio é merecedor de a platéia levantar-se para aplaudir. O próprio Marco Bellocchio realizou a direção e isso foi importante, porque só um diretor roteirista e um roteirista diretor poderiam ter ousado tanto. Coragem é a palavra para brindar o talento e o momento impar da inspiração dessa direção. Bellocchio não tem medo de experimentar no filme. O diretor parte de um roteiro baseado em fatos históricos, mantém força dramática e o tom documental necessário, no entanto, ele nos presenteia com uma aula prazerosa de narrativa. Bellucchio, como que inspirado pelas mais ousadas e espojadas técnicas de narrativa do teatro épico, torna lírico, um filme que poderia ter-se tornado chato sob uma coordenação desatenta.
Em Vincere é cinema dentro do cinema. É metacinema. Com filmes do cinema mudo e cine-documentos oficiais daquela época, nos mostrando Mussolini em imagens, creio algumas inéditas fora da Itália. De logo, o filme nos causa impacto quanto a fotografia, no geral pouca luminosidade, uma atmosfera sombria na maioria dos 130 minutos de duração, como que a metaforizar o período de sombras vivido pelos italianos naqueles dias; quando a luz aparece, é artificial e irônica. Outro ponto fortíssimo é a música do filme. Pulsante, como a sentir os sangue circulando pelas veias da Ida Dalsor. Inteligentemente, uma das únicas cenas onde não há música, pelo menos não convencional, é a cena de sexo, em tempo real, entre Mussolini e Ida. Em tal cena, a única musica é produzida pelos corpos, pela respiração de Ida, que se intensifica a medida que vem o gozo, e de sua voz repetindo uma certa frase bastante usual. Bela cena.
A Ida Dalser interpretada pela Giovanna Mezzogiorno é uma úlcera. Ela é tão boa que sentimos a dor, o espírito desnorteado dela, ressaltado por aqueles dois olhos grandes de atriz de cinema mudo. Decisão importante, anote-se, foi a opção de não usar atores para interpretar o Mussolini na fase madura, usando tão somente as imagens verdadeiras do próprio Duce real.
O desfecho da Segunda Guerra salvou a Itália de Mussolini e de seus Camisas Negras. O que nos salvará do Lula e de seus Camisas Vermelhas?

Texto dedicado aos bons professores de História.

terça-feira, agosto 10

'Uma Noite em 67'

Renato Terra e Ricardo Calil fizeram um documentário modesto. Verdadeiramente muito aquém da riqueza do material de que dispunham: o Brasil do final dos anos sessenta, com todos os seus conturbados ingredientes culturais e políticos. Contentaram-se em apresentar ao público os bastidores do III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record.
Para tanto, usaram a técnica de intercalar cenas originais dos bastidores e das apresentações dos cantores no palco com entrevistas atuais daqueles artistas, hoje 44 anos mais experientes. Esse subterfúgio, apesar de previsível, ainda consegue criar um interessante contraste estético entre as cenas em ‘preto e branco’, originais do passado, e as coloridas, atualíssimas. Um outro ponto de apoio do filme é a generosidade dos entrevistados, que, com muito humor e franqueza, nos conta não menos que ‘reliquiosas’ minúcias de seus estados d’alma naquele período. Chega a ser prazeroso ver Chico, Caetano, Edu, Roberto, e Gil, confessando detalhes de suas vidas e de suas opções naquele início de carreira. Foi gratificante. Meus desconhecidos companheiros da platéia e eu soltamos muitas gargalhadas. Mas por outro lado, também rolei algumas lágrimas escondidas, talvez motivadas pela nostalgia sugerida pela ausência de cores das cenas originais.
Eu sou um apaixonado por história, aliás, eu gosto de tanta coisa; mas o que interessa é que boa parte da história do homem, notadamente a partir do final do século 19, está conservada e nos é apresentada através do ‘filme’ preto e branco, seja por via da fotografia ‘estática’ ou em movimento. E não nego que me causa um imenso prazer ver cenas de velhos documentários em preto e branco ou mesmo passar horas envolvido por cenas de filmes antigos, ainda não banhados pela policromia. Gosto de preto e branco. O Vagabundo Carlitos, colorido, que lástima!
Os anos sessenta, peculiarmente seus derradeiros anos, foram cenário de agitações e transformações em diversos setores das sociedades do Ocidente. Este nosso recorte da civilização sofria uma revisão de seus valores, em conseqüência ainda das muitas seqüelas deixadas pela recente Segunda Grande Guerra, e agora pela Guerra Fria, e pelos muitos conflitos bélicos levados em muitos cantos do globo, os ocidentais pareciam assim buscar uma resposta para o significado ou o sentido de viver, daí a eclosão do Movimento Hippie, do Movimento Feminista, do fortalecimento, para muitos, ameaçador, do Comunismo, de todos os movimentos que berravam por liberdade, igualdade e paz, e aí surgia a sintomática rebeldia, estampada e ostentada através das artes, sobretudo através da música, bem como das drogas, da liberalização sexual, no privilégio do ‘hoje’ em detrimento da perda de tempo em se pensar no ‘amanhã’. O mundo parecia esquizofrênico. Talvez, estivesse neurastênico. EUA e URSS disputavam seguidores e apontavam suicidamente seus mísseis escatológicos um para o outro. O fim parecia certo. Em tempos assim, o melhor para muitos era cantar, viver um eterno ‘hair’, muito melhor do que ‘sentar-se no trono de um apartamento, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte a chegar’. Mas, e o Brasil? Como estávamos nós naqueles idos?...
Em 67 o Brasil já tinha Brasília, além das dívidas deixadas por JK; por outra, já se fabricavam aqui alguns dois fuscas, o pau d’gua do Jânio já havia caído fora, tínhamos escapado por pouco da imprevisível escalada da dupla caudilha Jango e Brizola, aquela que pretendia ser em solo tupiniquin a versão da dupla Fidel e Raul, transformando o Brasil num “Cubão” – essa expressão não é minha. Enfim, tínhamos há pouco mais de 3 anos caído nas garras dos militares, não menos inconseqüentes. - embora persistam dúvidas de quem teria sido pior para o País, uma ditadura Janguista administrada pelos camaradas, ou os indisciplinados anos de Médici.
Em 67, a coisa por aqui começava a endurecer, e, loguinho loguinho, em 68, surgiria o AI-5, ferramenta implacável do Regime de exceção, que mostrava que entrava e não queria sair de cena tão cedo. Neste período a ditadura ainda se fazia tímida, acreditava-se que seriam marcadas eleições democráticas e que o poder seria devolvido a um Presidente civil, isso não aconteceu. Mas a pergunta que não quer calar-se: Desde a renúncia de Jânio Quadros, no início da década, onde estavam e a que se dedicavam os jovens brasileiros? Quais eram suas posições e conceitos políticos? Talvez uma parcela dos jovens, impulsionados certamente pela histórica pilantropia da prática política partidária de nosso país e, profundamente fadigados com o descaramento dos políticos no trato com a coisa pública, caíram na armadilha da ilusão das promessas do não menos inconseqüente e perverso Comunismo. Já uma outra soma considerável desses jovens era apolítica, ou por acomodação, ou por falta de acesso a informação ou formação.
Fato é que havia uma ameaça no ar, vários são os historiadores e analistas que catalogam evidências de que João Gular (Jango), uma vez não deposto, teria firme aptidão e objetivo de perpetuar-se no poder, transformando-se num inabalável ditador populista, chefe de um Regime Totalitário Comunista, e Deus sabe o que seríamos hoje enquanto Nação. Mas nunca é demais fazer um exercício de futurismo retroativo – parece contra-senso – mas é possível: o que se tornou a Rússia Socialista? Basta saber que nos anos do maníaco Stálin qualquer camarada seu, ao passar pelas ruas e avistar qualquer bela mulher que lhe despertasse desejo, podia jogá-la dentro do carro e estuprá-la; ao final, com sorte ela podia voltar para sua família com vida, mas já sem dignidade, a maioria matava-se. Vejamos outros exemplos, o caso notório da parte do território Alemão que ficou décadas sob tutela dos socialistas, aquela que viria a ser a Alemanha Oriental, com a queda do muro de Berlim pode-se verificar o quão arrasado se encontrava a parcela Oriental do povo Alemão. E o que dizer das falácias da Coréia do norte? De um Regime guiado por um maníaco que mata seu povo de fome? Ou dos presos políticos cubanos mortos aos montes, enquanto Fidel tornou-se bilionário com a venda de açúcar e tabaco? A China? Caso muito complexo. No início dos anos 60 estávamos fadados a cair numa ditadura. A dúvida residia apenas em saber se seríamos flagelados pelos Camaradas vermelhos ou pelos Milicos revanchistas, que queriam ferrar os “Casacas” (civis) desde a guerra do Paraguai.
Hoje em 2010, temos um Presidente populista. Temos um Partido Único que parece que irá se perpetuar por décadas no poder. Não Temos mais Oposição. Os conservadores de fato se esconderam. Os jovens, onde estão? No Primeiro debate entre os presidenciáveis desta campanha, perguntei a 50 estudantes de direito de uma faculdade se eles o tinham acompanhado, pasmem, nenhum dos estudantes tinha se dado ao trabalho. É Provável que Dilma se eleja. É provável que Lula volte em 2014. É provável que os EUA invadam o Irã. É sabido que um Povo paga por precisar de heróis ou Grandes Pais. Eu conversava com um amigo, hoje pela manha, que talvez a nossa geração – atuais 18 a 30 anos – seja a geração mais perdida de todos os tempos. E por quê? Porque tivemos tudo nas mãos, e sequer somos capazes de pensar e ler. Somos piores do que a ‘Geração Coca-Cola’, somos a ‘Geração Dilma Rousseff’.

Hedre Lavznk Couto

Texto dedicado a João Ubaldo Ribeiro, porque eu tento, mas não consigo brincar de anacolutos.