quarta-feira, agosto 25

'Zeca Camargo é minha mula’

Numa época não tão distante tinha sido ele um jovem arquiteto de talento arrebatador. Casou-se com Mal, uma mulher fascinante. E passaram a dividir entrei si não apenas o carinho de um pequeno casal de filhos, mas também a paixão por uma inusitada técnica que lhes permitia adentrar por profundas experiências oníricas. Havia entre eles um amor de tal grandeza que o mundo real não mais lhes bastava. Precisavam de um lugar próprio, de um mundo particular. Aperfeiçoaram então suas técnicas, e tornaram-se obcecados pela idéia de abandonar a realidade, e entregaram-se à rotina de adormecer e se auto induzirem ao mundo dos seus sonhos. Lá, formaram um casal de deuses, criaram e materializaram mares, ilhas, cidades com avenidas ladeadas por arranha-céus improváveis e casas resgatadas das memórias de suas infâncias, tinham quais e quantas profissões quisessem, realizavam as viagens que desejavam, podiam controlar o clima e o tempo, eram senhores de sua felicidade, um mundo onírico confusamente mais real do que o real, projetado com a força do pensamento.
Porém, quando despertavam de volta ao mundo real, este já não parecia tão real, de modo que o mundo que criaram dentro dos sonhos parecia ser mais coerente, mais palpável, desejável. Com o passar do tempo Mal perdeu o controle e tornou-se dependente das imersões oníricas. Lançava-se nos sonhos e de lá não mais queria sair. Dom percebeu que a obsessão da esposa progredia perigosamente. Num dos sonhos, Mal se recusava a voltar para a ‘superfície’ e passaram tanto tempo sonhando e vivendo naquele mundo, que ambos acabaram mergulhando num nível mais profundo chamado – Limbo, onde chegaram a viver toda uma vida, envelhecendo juntos. À medida que se demoravam em tal dimensão, aumentava-se o risco de que eles não mais conseguissem acordar, foi quando Dom resolveu que era preciso ‘plantar’ uma idéia na cabeça de Mal: induziu-a passo a passo a questionar a realidade daquele mundo que ela julgava indiscutível. Acordaram.
De volta ao mundo real, depois de tanto tempo sonhando, Mal se torna perturbada. Desenvolve a idéia fixa de que o mundo real não é real e tenta persuadir Dom da necessidade de se matarem os dois, para que assim possam despertar na verdadeira realidade. A vida do casal enlouquece, Mal afirma que os filhos não são reais, e, sim projeções de suas mentes. No dia do aniversário de casamento, numa última tentativa de convencer Dom a cometer o duplo suicídio, como esse não concorda, ela joga-se do alto de uma janela. Para puni-lo, deixa uma carta, onde afirma que vinha sofrendo ameaças do marido e que temia por sua vida. Dom torna-se o principal suspeito do crime. Foge dos EUA. Foragido, torna-se acusado, e impedido de voltar a viver com os filhos...
...Erra de continente a continente. Não é mais arquiteto nem de seus próprios sonhos. E como não lhe restando outra opção, recicla suas habilidades com o subconsciente e transforma-se numa espécie de mercenário especializado em invadir mentes alheias. Com sua equipe, presta os mais clandestinos serviços para pessoas e corporações de todo o mundo. Seu verdadeiro trabalho agora é invadir a mente de determinadas pessoas, através dos sonhos, e lá plantar sementes de idéias, o que eles e seus colegas chamam de Inserção.
Por outro lado, Dom é um completo infeliz. Trabalha com único objetivo de conseguir comprovar sua inocência e voltar para casa, voltar para os seus filhos. E, quando tal objetivo parece ser inalcançável, surge uma proposta: um poderoso magnata deseja que ele faça uma inserção na mente do herdeiro do seu maior concorrente, e lá plante a semente da idéia “não seguirei os passos do meu pai. Venderei todos os negócios.” Aparentemente, surge a grande oportunidade através da qual Dom encerrará seu exílio involuntário, só que, para realizar esta tarefa ele precisará vencer diversos desafios, e o maior deles são as lembranças de Mal, que corroem sua mente como um vírus. Além disso, ele e sua equipe precisarão ir até a perigosa zona do Limbo.
Buscando A Origem...
“Cheio de arrependimentos (...) estou esperando alguém. Alguém de um sonho esquecido (...) morro de saudades de você. Mas preciso deixar você ir. Nosso tempo já passou (...) porque você não existe. Olha só pra você, é só uma sombra (...) nos meus sonhos você ainda está viva. Mas não são sonhos, são memórias” – são algumas falas de Dom. Na busca da Origem é preciso saber que a menor semente pode crescer dentro de uma cabeça e se transformar numa idéia, que pode crescer feito um câncer e te destruir. Dom é um homem alquebrado porque plantou na própria mente a semente da idéia de uma culpa. Não se perdoa por ter iniciado Mal nas navegações da mente; menos ainda por um dia ter-lhe plantado a semente da idéia do questionamento; nem por ter sido covarde quando resistiu e não pulou daquela janela com ela. Ele só queria voltar no tempo e recuperar a vida que perdera; a mulher que amava, os filhos amados que ficaram para trás. Logo Dom que sempre quis uma vida, e através dos sonhos a projetou em sua acepção mais plena, agora não tem vida alguma, precisamente sequer existe, e teme morrer sozinho. Por telefone, o pequeno James lhe pergunta: “quando você voltará para casa, papai?” e Dom responde, - “breve, filho” – mas ele sabe que talvez nunca retorne, porque Mal mora em sua mente, e mesmo morta, está viva e causando danos como nunca, tentando ainda o convencer a abandonar tudo metendo uma bala na cabeça, para encontrá-la do outro lado. Mas entre a culpa e o amor, Dom opta por tentar voltar a ver os rostos de James e Phellipa.
Um filme jamais é feito para ser entendido, jornalista Zeca Camargo. O mais importante não é aquilo que pode ser explicado, e sim a sensação. Diante do filme que vemos na Telona, cada um de nós nos ‘identificamos’ à nossa maneira, e criamos relações, interações e projeções entre a história que está sendo narrada e as nossas próprias experiências emocionais; de forma que não precisamos ter essa obrigação falsa-inteligente de entender patavinas dentro do cinema; tão somente basta que nos permitamos que a película nos desperte algo na alma. E se nos sonhos criamos e percebemos de forma simultânea, e se a arte é um sonho, tal é o cinema.

E com certeza A Origem cumpre bem essa nobre missão. Quando se tira todo o ‘casaco de pele’ dos efeitos de computação gráfica e daquilo que eu chamo de ‘ficção onírica’, sobra um roteiro correto, com diálogos banhados com refinados toques de humor. Um elenco agradável de ver, equilibrado, trazendo Leonardo DiCaprio em performance inspirada. Além das brilhantes atuações de Cillian Marphy na pele do Robert Fischer, e da Ellen Page, encarnando a Ariadne. Entretanto, existe algo de assombroso, de impressionante neste filme, e chama-se Mairion Cotillard. Magnífica atuação! Os olhos dela interpretando a Mal é algo para se guardar na memória. A partitura corporal da Mairion criada para esta personagem é uma aula para quem pretende ou se diz ator ou atriz. A interpretação da Mairion Cotillard neste filme é um sonho de três níveis: tão cheia de complexidades quanto um sonho dentro de um sonho dentro de um sonho. Depois de ver algo assim, difícil é resistir ao Limbo! Vou embora para o Limbo. E ela acerta em todos os filmes: esteve maravilhosa e precisa na pele de Edith Piaf. Esteve deliciosa em Nine fazendo a mulher do protagonista. A música do filme não tem nada de espetacular, mas é muito competente. A direção mostrou-se muito criativa, ao eleger como toque dos chutes (momentos onde os personagens eram acordados, sincronizadamente, ao longo dos vários níveis do sonho) a música ‘Non, Je Ne Regrette Rien’, de Edith Piaf, e os versos “Non... rien de rien...Non... je ne regrette rien… Ni le bien qu'on ma fait, Ni le mal - tout ça m'est bien égal!” que vem a calhar como uma inteligente ironia para o conflito do protagonista envolto pelo sentimento da Culpa. Quanto a última imagem do filme, o objeto girando em cima da mesa, eu jamais divido escova-de-dentes. Paradoxo. 11 minutos, Tempo Real.

Dedicado a minha mãe. Porque, por mais que a ame, ainda não sou o bastante.

Hedre Lavnzk Couto.

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