domingo, maio 23

AVATAR

2154 D C. Uma grande batalha. No cenário, Montanhas flutuantes, plantas colossais, gigantescas árvores luminosas, cascatas d’água de infinita proporção, imensos répteis voadores que congestionam os céus, mamíferos improváveis e ferozes, algas voadoras que curam feridas, humanos que controlam, através da consciência, corpos criados artificialmente, e, tudo o que a mais prodigiosa das imaginações jamais tinha ousado conceber, esta é a longínqua Lua Pandora, onde vivia pacificamente o Povo Na’Vi, humanóides primitivos de três metros de altura com caudas, ossos naturalmente reforçados com fibra de carbono e pêlo bioluminescente, adoradores da deusa Eywa, totalmente conectados a natureza até sofrer a invasão de mercenários humanos, que pretendem extingui-los para explorar suas reservas do precioso minério Unobtanium.
Idealizado, escrito e dirigido por James Cameron, mesmo diretor de filmes como O Segredo do Abismo; Aliens – O Resgate; O Exterminador do Futuro; O Exterminador do Futuro 2 – O Julgamento Final ; e Titanic; AVATAR prometia ser um filme desbravador dos limites dos efeitos especiais. Revolução das câmeras 3 D, das lentes e de toda a computação gráfica. Exigência categórica do diretor, com o intuito de conferir o máximo de realidade à sua imaginação, era de que o filme fosse todo produzido em 3D. Cameron previa que somente assim seria possível proporcionar ao espectador uma experiência de total imersão no filme. E esse era meu medo.
Pensei: ‘lá vem mais um desses filmes notadamente piegas onde os computadores fazem grandes barulhos por nada e os bons diálogos e interpretações tiram férias’. Recentemente tivemos uma ótima idéia perdida em meio a um roteiro manco e uma execução cinematográfica desastrada. Refiro-me ao filme ‘2012’, que afora algumas imagens fortes e perturbadoras de um apocalipse presumível, nada mais provocou na maioria do público do que embrulho no estomago e alguns risinhos diante de um divertido casal separado e um russo estabanado. ‘2012’ foi muito alvoroço gráfico e pouca sensibilidade artística para explorar um tema controvertido da atual pauta mundial. Assim relutei bastante em conferi AVATAR. Mas fui! Fui ver mais um filme de um ex jovem estudante de física que, aos 23 anos, em início dos anos 70, ao entrar no cinema e ver o Episódio IV de Star Wars, decidiu estudar sobre ficção científica e câmeras, mudando o rumo de sua vida e fazendo filmes campeões de bilheteria e crítica.
AVATAR é o filme mais caro da história do cinema. Custou US$ 400 milhões. E até o dia 03 de janeiro de 2010 já tinha faturado US$1,02 bilhão, se tornando a quarta maior bilheteria de todos os tempos. MAS VALE CADA CENTAVO. RECOMENDO. E digo isso porque neste novo trabalho de Cameron a computação gráfica, a mais apurada tecnologia 3D surge como uma linguagem, um meio imprescindivel de tornar possivel a projeção da metáfora pensada pelo cineasta. Em AVATAR o uso da mais avançada tecnologia não é um fim em si mesmo. Não é exibicionismo gratuito. E sim uma necessidade.
E qual seria então a grande metáfora do diretor? James Cameron nos projeta num contexto de 114 anos a frente dessa nossa época. Onde, segundo a fábula, os humanos já destruiram todas as pontencialidades e capacidades naturais e vitais da Terra, transformando-a num planeta morimbundo, e agora veem-se na necessidade de corromperem as riquezas energéticas de outros sistemas. De cara já é nada animadora essa perspectiva de que em 100 anos o homem já teria comprometido irremediavelvente as condições de sobrevivência terrena. Outro ponto assustador é o de que não obstante à experiência de já terem perdido o próprio habitat original, por conta de seu instinto predador e autodestrutivo, os humanos não teriam se conscientizado dos erros, aplicando aos novos planetas encontrados os mesmos métodos desastrosos de convivência belijerante e exploração imprudente.
Mas ainda se pode pensar o filme sobre outro ângulo. Ao criar Pandora, um mundo macroscopicamente belo, virgem e plural, dotado de seres puros e pacificos e que convivem em total harmonia entre si e com inteira conexão com os elementos da natureza, o cineasta coloca uma espécie de lente de aumento na exuberância e na fragilidade de nosso próprio planeta Terra, como a nos recordar e a nos alertar de que ainda há tempo de cuidar de nossa casa, e mantê-la bela, rica e viva! O povo de Na’Vi, os seres primitivos de Pandora, podem ser vistos como aquele lado do homem que ainda tem consciência da necessidade da preservação. Portanto, a Guerra entre os humanoides Na’Vi e os homens pode ser interpretada como o embate existente entre os dois lados do Ser humano, respectivamente, a consciência da necessidade da conservação do planeta e o nosso instinto auto destrutivo e inconsequente.
Relevante então é notar quão adequadas se tornam as discussões suscitadas pelo filme, se tomado por essa visão. Num momento onde muito se discute a saúde e conservação do planeta. Onde ocorrem incansáveis debates entre os que acreditam e entre aqueles que negam o aquecimento global acima dos níveis considerados normais, em conseqüência da emissão de resíduos tóxicos na atmosfera. O fato é que o homem nos últimos dois séculos e meio vem degradando viciosamente o planeta e isso certamente nos tem trazido prejuízos visíveis. E mais cedo ou mais tarde, se estes atos irresponsáveis não cessarem, o planeta pode resolver acertar contas com os seus parasitas, tal qual nas últimas cenas de AVATAR a natureza se revolta e aniquila o seres humanos opressores e arrogantes que, iludidos com sua tecnologia, julgavam-se inabaláveis.
A imagem do filme que mais me marcou foi a da queda da grande árvore. Aquelas dezenas de helicópteros enlouquecidos metralhando a velha árvore até a sua queda é lastimável e forte. Simboliza muito mais do que as mortes de milhares de árvores diariamente na Amazônia. Aquela árvore, imóvel, sendo raivosamente perfurada como se faz na guerra a um inimigo atroz, quando tomba, é como se tombasse parte significativa da própria humanidade, como se existisse uma árvore caindo dentro de nós. Dentro de mim mesmo.

Hedre Lavnzk Couto

Um comentário:

  1. Gostei da sua crítica sobre o filme... dá quase pra viajar novamente pelas cenas...

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