Vamos torcer para que minhas palavras se revelem adequadas, não é? O espetáculo ‘Diário do farol’ é uma adaptação dramatúrgica (de Amarílio Sales) e cênica (de Fernanda Paquelet) inspirada em livro homônimo do consagrado escritor baiano João Ubaldo Ribeiro. Contudo, a despeito da grande empolgação decorrente das merecidas intenções de se homenagear a Ubaldo, trata-se de uma adaptação acanhada, paupérrima em teatralidade.
À primeira vista o espetáculo traz a fábula de um personagem ‘encarcerado’, sozinho no interior de um farol, com suas lembranças, suas fantasias, seus fantasmas, e a materialização das histórias narradas em seu diário. A narrativa nos induz a crer que, esse homem, após ter atravessado algumas vicissitudes pela vida, decidira vingar-se daqueles que elegera como culpados por suas desgraças, passando então a viver despido de quaisquer obrigações para com a ética ou a moral.
COMO ENCENAR UM DIÁRIO?
O protagonista, vivido por Amarílio Sales, divide com o público os pormenores de sua vida. E todo o conteúdo desta verdadeira autobiografia, em forma de diário, vem à tona, vai se materializando no palco. O personagem começa contanto sua história desde os tempos de tenra infância. O quotidiano doméstico da vida familiar, o convívio com os pais, numa fazenda. O machismo e o sadismo da figura paterna, que desdenha a esposa e humilha e atemoriza a personalidade do filho, ainda em formação. A morte da mãe. O novo casamento do pai. Que culmina com o planejamento e execução do fruto desse matrimonio, a pequena irmã, considerada pelo protagonista uma bastarda, adversária. A expulsão da casa paterna. A revolta. O aprofundamento das patologias de sua personalidade. A descoberta do prazer em manipular e ludibriar as pessoas. Sua entrada para o sacerdócio. A prática reiterada da luxúria e da corrupção. O surgimento da grande paixão por uma de suas fieis. A decepção de ser preterido. O engajamento com movimentos políticos armados, enfim, toda a deformação de uma alma atormentada pelos descaminhos da vida, ganha relevo sobre o tablado.
Mas são tamanhas as maquinações e a confissão doentia do personagem, que, por diversas vezes o público certamente indaga: ‘será que realmente ele viveu tudo isso que vem narrado no diário, ou será tudo apenas fantasia de um estado emocional enfermo, fruto de profunda frustração e solidão?’ Na verdade, muitos saíram com essa dúvida. Aquilo que o protagonista narra são registros de fatos reais, ou ao contrário, uma obra de ficção criada por ele?
A CONCEPÇÃO...
O conflito do protagonista, ou a narrativa do diário, como queiram, é delineado em distintas dimensões cênicas. Podemos dizer que existe a dimensão do presente, ou seja, quando o personagem simplesmente narra à platéia (lendo o diário ou, quebrando a quarta parede e falando diretamente às pessoas) os registros; um plano das lembranças, onde ele contracena com o pai, ou com a mulher objeto de sua paixão; e uma atmosfera da fantasia-alucinação, na qual ele contracena com o fantasma da mãe. Existe em dado ponto, um bom momento dramático, quando juntam-se simultaneamente todas essas dimensões conflituosas, p.ex., o personagem contracena com o pai, e ao mesmo tempo está abraçado ao fantasma da mãe, e ainda escuta vozes de outro plano, de forma que o espectador tem a possibilidade de entender melhor o teor da confusão mental do protagonista.
Também se consegue um efeito interessante ao fazer com que o personagem de Amarílio, já em idade madura, realize a transição do plano do presente e empreenda imediatamente contracena com o pai, em cenas ainda de sua infância. Isso porque, já velho, ali revivendo e sofrendo com o sadismo paterno, o personagem evidencia, ainda mais, a vulnerabilidade porque passava em criança, diante da repetição de tal situação.
Também aqui a escolha do Espaço Cultural Barroquinha abrigou satisfatoriamente o ar imaginado para o espetáculo, serve bem à sugestão de um ambiente de velho farol. Entretanto, tenho dúvidas se a disposição cênica em forma de ‘quadrado’ serve para conferir vigor à peça. Talvez servisse se explorada com mais ousadia, com mais criatividade e coragem. E se a interpretação dos atores fosse coletivamente magnífica. Porém, não vou me aprofundar hoje nesta questão. Falarei brevemente da iluminação. Qual é o objetivo de uma luz aberta em momentos de incontestável necessidade de valorizar o intimismo? Outra coisa: a reiterada quebra da quarta parede pelo personagem de Amarílio. Para que? Em alguns momentos, cabe. Mas da forma exagerada e marcadinha como foi colocada, compromete. Há enorme déficit de teatralidade neste espetáculo, o único momento de verdadeira teatralidade ocorre em uma das cenas finais, onde um estupro é bem bolado com efeitos lúdicos, usando-se para tanto uma pequena boneca.
O TRABALHO DOS ATORES...
O talento de Amarílio Sales, embora não por vaidade pessoal, engole a todos, e, por isso, quando o espetáculo conta uma hora, ele já está cansado. Mesmo assim leva o seu personagem com dignidade e beleza até o final. Amarílio é dos atores que vale pena assistir no teatro de salvador. Bom trabalho corporal. Pela sobrecarga, a voz aparece um pouco sacrificada.
Tatiana Carcanholo tem o seu melhor momento na primeira entrada. É uma atriz regular, o que nos atuais tempos de vacas magras, significa que, se melhor conduzida poderia ter rendido muito mais. O trabalho corporal que ela realizou para compor esta sua personagem é muito fraco. Vai à mesma medida o trabalho vocal, uma construção horizontal, perpassando pela tentativa de obter uma suavidade que caiu em artificialidade. Isso compromete o espetáculo, o cansaço de Amarílio que o diga.
Naiara Homem interpreta a si mesma. O que dizer? Há sim: não entendo a proposta de sua caracterização plástica, buscou-se sugerir uma entidade meso-aquática-polar?
Daniel Becker é o cara. É o que mais compromete o espetáculo, tanto individualmente como em seu conjunto. Becker, neste trabalho, se mostrou uma casca, ele peca, não consegue trazer a necessária austeridade para seu personagem. Além disso, não pensa em cena, vomita o texto. E explora pobremente o traço de sadismo evidente e necessário ao seu personagem. Cito como exemplo aquela cena de extremo sofrimento, onde expulsa o protagonista pela morte da filha, ali faltou consistência em seu trabalho interior, neste, como em outros instantes de sua contracena com o filho, Amarílio teve que suprir, unilateralmente, a intensidade que a cena pedia. Outro problema que Daniel apresenta está em sua movimentação física, vazia, ou sem sentido e repetitiva, a ex. do que ocorre na primeira cena.
UBALDO, PAQUELET E AMARÍLIO...
Congratulo Ubaldo por ser um grande baiano, um orgulho para nossa literatura e para a nossa Bahia. Gostaria de ver muito mais textos seus aqui encenados. Também parabenizo a Amarílio e Paquelet pelo projeto, que embora eu considere artisticamente fragilizado, tem dignidade. Quero ver com muito mais freqüência trabalhos de ambos sobre os palcos. Ainda preciso ver ‘Sarjento Getúlio’, de Ubaldo, Gil Vicente e Betão.
Hedre Lavnzk Couto
p/ Carolina
sábado, outubro 22
sexta-feira, outubro 21
Crítica do espetáculo ‘A voz do provocador’
Um momento memorável. Assim pode ser definida a sensação inconfundível de ouvir as implacáveis provocações de Antonio Abujamra, ao longo de pouco mais de uma hora, em plena noite de sábado, 15, no Teatro Sesc Senac Pelourinho. Abujamra é história viva do teatro, da televisão, do cinema, e da arte pensante do Brasil desde a segunda metade do século vinte. É ele membro de uma inquieta e talentosa geração de homens de teatro que, até os dias de hoje, ainda representa ousadia, originalidade, subversão, provocação. Embora ele próprio e os colegas admitam que tal estigma ainda perdure muito em conseqüência da apatia e mediocridade da esmagadora maioria daqueles (artistas de teatro) que vieram depois deles.
Aí, o velho Abu, após décadas de consagrada prática teatral, de personagens de telenovela emblemáticos, e de inspirar, descobrir e formar boa parte daqueles que realmente podem pleitear o prenome ‘artista’, chega à idade madura escolhendo desempenhar um personagem instigante: o velhinho intelectual inconseqüente e provocador. Tal qual um gótico bobo da corte, deste reino de abobalhados tropicais, Abujamra, um observador perspicaz do cotidiano, profundo conhecedor da história humana, da filosofia, da literatura dos quatro cantos do planeta, transformou seu arcabouço cultural em munição corrosiva, e sua língua em metralhadora ferina de longo alcance. E como às crianças, aos velhos, e aos ‘bobos’ é permitido troçar das feridas das gentes zangadas, das doenças da vida, e das nossas pequenas (des) honestidades cotidianas, Abu escarra e escarnece nessa e dessa capenga [tragicomédia de costumes], que é essa nossa inócua aldeinha global, boçal.
Há alguns anos, Antonio Abujamra estreou na TV pública um formato curioso de programa de entrevistas. Em ‘Provocações’ Abu recebe convidados que são oriundos dos mais diversos matizes sociais. Diante do entrevistador sentam-se poetas, esportistas, donas-de-casa, políticos, empresários, religiosos, desocupados, cidadãos, indigentes, provocados e provocadores. Até aí, nada demais, se não fosse a incoercível originalidade da capacidade criativa do veterano diretor teatral. Tudo em ‘Provocações’ é feito para provocar, para incomodar, para quebrar o conforto, para causar estranheza (olha aí, as lições de Brecht, Abu!) para fazer com que o convidado seja, pelo menos uma vez na vida, ele mesmo; para fazer com que o telespectador desperte para o quanto é idiota permanecer anestesiado durante 30 minutos diante de um aparelho de tv, ao passo que poderia empregar este tempo de maneira útil, viva, criadora!
No estúdio tudo conspira para provocar. A plástica causa de cara um desconforto visual. No cenário, cores cruas e quentes. Na luz, que em verdade faz uma meia luz, reproduzindo uma penumbra, cores frias, de modo a imprimir uma atmosfera psicológica de clandestinidade. Na sonoplastia vozes, muitas vozes, falando, reclamando, ao mesmo tempo, proporcionando uma agitação auditiva. Além disso, reina um jogo de câmeras, de ângulos, de edição, bem característicos de quem viveu e praticou os anos de ouro da televisão improvisada e espontânea, anterior a chegada do vídeo tape. À câmera nada escapa, sua missão é buscar em plano-detalhe a textura, as características corporais, flagrar as mais contidas manifestações emocionais dos convidados, prevê suas explosões diante das provocações reiteradas, e seu ímpeto de também provocar. E tudo isso aliado e envolvido pelo ingrediente principal do programa, o olhar gélido dos dois velhos olhos negros de Antonio Abujamra, o conteúdo mordaz e irrepreensível de seus questionamentos, o cinismo peculiar da cadência com que profere a seqüência das palavras que encadeiam as perguntas. O deboche didático de um gênio, um convite nada convencional para que as pessoas reflitam sobre sua postura habitual, sobre que tipo de dias estão vivendo e que tipo de sociedade estão ajudando a construir.
Notem que me estendi, amigos, espero que não o bastante para terem desistido da leitura. Mas foi por um importante propósito, que de início optei por tecer alguns comentários do formato televisivo ‘Provocações’, uma vez que o projeto ‘A voz do provocador’, de Antonio Abujamra é a versão teatralizada dessa empreitada.
'A VOZ DO PROVOCADOR', ESPECIFICAMENTE
Abujamra desembarcou em salvador neste mês de outubro com 79 anos de idade. Trouxe-nos um trabalho que denominou de ‘uma aula-espetáculo’. Certamente eu tenho algumas ressalvas a fazer sobre esta sua ‘obra’. Mas, antes de qualquer coisa, preciso registrar que sou um admirador dos trabalhos e bagagem deste artista. É possível se aprender muito com ele. Ter Abujamra no palco, em si, já podemos considerar uma situação espetacular. De outra parte, digo que o folder, como a maioria dos folders de espetáculos que vemos por aí, nos promete e fala de muita coisa cuja presença no palco jamais se vê. Mas a intenção de se propor uma aula- espetáculo e correr os quatro cantos do Brasil, levando-a para milhares de espectadores sem dúvida é interessante e, para a sobrevivência do teatro, útil sob vários aspectos.
O TEATRO DOS DEBATES...
A tese desta aula-espetáculo é sensível e sobremaneira sintonizada com a atual realidade dos fatos de uma sociedade contemporânea complexa. Abujamra, que assina o texto, a concepção, a direção e atua, em momento de feliz clarividência afirma a certa altura que no presente contexto das coisas, o teatro apenas resgatará o seu lugar de verdadeira arte da inter-subjetividade, acaso sirva como palco de debate de idéias, ao contrário senso de um mero espaço contador e reprodutor de histórias. Em outras palavras, Abu está na defesa de um teatro que não seja unicamente entretenimento, embora também possa associar-se a esta função, mas para ele, o espetáculo teatral deve, sim, ser vetor de reflexão, apuração, transformação e balanço constante dos paradigmas da sociedade. O objeto artístico teatral deve ser vivo (além de grotovsky), proporcionando uma mútua troca e crescimento entre os sujeitos criadores e os sujeitos espectadores – que obviamente, neste contexto, também serão criadores; os artistas e o público devem enfrentar com sintonia e crueldade (além de Artaud) a patente crueldade de determinados temas, tabus e realidades. Experimentar, evoluir, viver, o teatro pode e deve ser verdadeiramente inserido nesta dinâmica.
Concordo. Em todo caso, manifesto divergência às lições de Abujamra, na medida em que de minha parte acredito também se fazer possível realizar o necessário debate sobre o palco, mesmo quando se opta por contar histórias. Não podemos esquecer que a boa dramaturgia certamente nos oferece histórias dotadas de consistência e profundidade, capazes de auxiliar a contento na condução de diversas linhas de debates. Ao meu ver, tudo dependerá da qualidade da fábula, da pertinência das escolhas, da sensibilidade da encenação, do talento dos atores.
Mas entendo perfeitamente o cerne do que está sendo constatado por Antonio Abujamra. Assim como ele, já algum tempo venho dizendo que o teatro como o vemos hoje, parece até óbvio, mas muitos artistas fundamentalistas não admitem este ponto de vista, o espetáculo ou a peça de teatro tal qual o concebemos e apreciamos no presente, desaparecerá em poucas décadas. Depois de flertar, embriagar-se e ter repetidas overdoses com altas doses de pirotecnia dos atípicos recursos do cinema e da televisão, ou mesmo do grande show business, o teatro vem já há tempos manifestando uma tendência global pela retomada da estética da ‘essencialidade’, ou seja, cada vez mais artistas, produtores e público, têm caminhado na direção de um teatro sustentado na consistência temática, na economicidade de efeitos alheios ao talento dos atores e, sobretudo, têm-se buscado fazer uma arte teatral capaz de promover com o espectador uma interatividade de cunho mais utilitário do que supérfluo.
A DISPOSIÇÃO ESPACIAL...
O que se faz necessário para a realização de uma aula? Alguém que tenha experiências a compartilhar e outro(s) que queria(m) ouvir, e aprender, trocar etc. Para a realização de sua aula espetáculo, Abu precisou apenas da presença e (interação?) da platéia. À direita baixa do palco situava-se uma mesa e uma cadeira, que abrigava alguns livros e anotações do ator, de modo que Abujamra já no início do espetáculo lá se sentou levantando-se apenas ao final para receber os aplausos. Ao fundo central, situava-se uma tela onde eram projetadas imagens e vídeos que iam sendo solicitados conforme o andamento da aula-espetáculo. De sua mesa de trabalho Abu deu curso ao roteiro temático que trouxera para provocar o público soteropolitano. Com a luz de platéia na maioria do tempo ligada, o ator falava o tempo todo na direção do público. Ali leu passagens de filósofos, poetas, dramaturgos, contou algumas de suas experiências profissionais, algumas anedotas sempre com muito humor (ácido de sempre) e, sobretudo, Abujamra optou por fazer uma ponte direta com materiais que foram destaque ao longo da história de seu programa de entrevista ‘Provocações’.
FRAGILIDADES... OU, ATÉ ABUJAMRA FALHA, E CONSEGUE SER PIEGAS
Realmente esta aula-espetáculo corre o sério risco de ser vista como obsoleta e fraudulenta quando incorpora no seu bojo diversos fragmentos já há muito vistos e repetidos em cadeia nacional de televisão pública. Embora Abujamra sempre brinque que seu programa conta apenas com meia dúzia de telespectadores, o real número é bem mais significante. Talvez o veterano homem de teatro tenha sido descuidado ou presunçoso em demasiado em não proceder a elaboração de um material verdadeiramente inédito. Este é um ponto lamentável, até decepcionante.
Outra fragilidade é o fato de haver uma promessa de aula-espetáculo, ou seja, implicando a expectativa natural de uma plena interação com o público, na realização de um grande debate, que caminharia quiçá para uma mágica direção inesperada, improvisada, enfim. Ei, Abu isso não acontece, e você sabe. O espetáculo fica vergonhosamente engessado. E ao passo que o formato e a proposta da aula-espetáculo têm potencial para possibilitar uma interação sem precedentes entre artista e público, infelizmente, não é o que se vê. O que ocorre é um simulacro, uma fraude primária de interação, através de um roteiro ditadinho que trás os momentos onde se tenta forjar que chegam até Abujamra bilhetinhos supostamente oriundos do público, por onde questionariam o ator sobre perguntas sem relevâncias alguma, para nada ou para ninguém. Pra que isso? Se realmente Abujamra sabe provocar e adora ser provocado, por que agiu com tal despotismo, ou insegurança, por que não se arriscou a interagir e canalizar as desconhecidas ações e reações que certamente emergiriam de maneira inesquecível e catártica do público entre si e para com ele? Abujamra chegou a salvador dizendo que trazia na bagagem uma aula-espetáculo sincera, mas na verdade trouxe um ‘monologuinho’, requentado e costurado às custas dos arquivos do seu programa de TV. Ao artista cabe ser honesto, ainda mais, quando se ufana a grandioso. Contudo, respeito-o muito, e afirmo que a despeito dos defeitos e das incongruências contundentes porque passa esta aula-espetáculo, ainda assim seria importante que cada brasileiro pudesse ter a oportunidade de vê-la.
O PONTO POSITIVO...
O ponto positivo é que tal iniciativa pode certamente influenciar artistas e público para visitarem mais esse formato cênico. Num futuro de médio prazo, a única esperança de o teatro não entrar em completo desuso, será a de seguir a estrada de transformar-se em um espaço ativo, onde artistas-pensadores e público, também pensante, compartilharão debates e experiências acerca da vida, e da sociedade.
O que seria sim, uma alternativa para o palco, para o teatro num momento como este que vivemos (principalmente em Salvador) de completa falta de capacidade artística, talento, criatividade, ousadia, consistência intelectual. Nossos artistas locais (salve-se aí as honrosas exceções) são medíocres intelectualmente, e isso é lastimável; e não possuem nem talento nem aptidão, apenas vaidade, ainda assim, deteriorada.
Ps: Abujamra já se mostra intelectual e físicamente cansado, embora ainda seja ele e sua geração a vanguarda mais consistente do teatro nacional. Querem atestado mais explícito da total falta de brilho da atual geração de artistas? Estrelas apagadas. “vanité des vanité tout est vanité.”
Hedre Lavnzk Couto
p/ Carolina
Aí, o velho Abu, após décadas de consagrada prática teatral, de personagens de telenovela emblemáticos, e de inspirar, descobrir e formar boa parte daqueles que realmente podem pleitear o prenome ‘artista’, chega à idade madura escolhendo desempenhar um personagem instigante: o velhinho intelectual inconseqüente e provocador. Tal qual um gótico bobo da corte, deste reino de abobalhados tropicais, Abujamra, um observador perspicaz do cotidiano, profundo conhecedor da história humana, da filosofia, da literatura dos quatro cantos do planeta, transformou seu arcabouço cultural em munição corrosiva, e sua língua em metralhadora ferina de longo alcance. E como às crianças, aos velhos, e aos ‘bobos’ é permitido troçar das feridas das gentes zangadas, das doenças da vida, e das nossas pequenas (des) honestidades cotidianas, Abu escarra e escarnece nessa e dessa capenga [tragicomédia de costumes], que é essa nossa inócua aldeinha global, boçal.
Há alguns anos, Antonio Abujamra estreou na TV pública um formato curioso de programa de entrevistas. Em ‘Provocações’ Abu recebe convidados que são oriundos dos mais diversos matizes sociais. Diante do entrevistador sentam-se poetas, esportistas, donas-de-casa, políticos, empresários, religiosos, desocupados, cidadãos, indigentes, provocados e provocadores. Até aí, nada demais, se não fosse a incoercível originalidade da capacidade criativa do veterano diretor teatral. Tudo em ‘Provocações’ é feito para provocar, para incomodar, para quebrar o conforto, para causar estranheza (olha aí, as lições de Brecht, Abu!) para fazer com que o convidado seja, pelo menos uma vez na vida, ele mesmo; para fazer com que o telespectador desperte para o quanto é idiota permanecer anestesiado durante 30 minutos diante de um aparelho de tv, ao passo que poderia empregar este tempo de maneira útil, viva, criadora!
No estúdio tudo conspira para provocar. A plástica causa de cara um desconforto visual. No cenário, cores cruas e quentes. Na luz, que em verdade faz uma meia luz, reproduzindo uma penumbra, cores frias, de modo a imprimir uma atmosfera psicológica de clandestinidade. Na sonoplastia vozes, muitas vozes, falando, reclamando, ao mesmo tempo, proporcionando uma agitação auditiva. Além disso, reina um jogo de câmeras, de ângulos, de edição, bem característicos de quem viveu e praticou os anos de ouro da televisão improvisada e espontânea, anterior a chegada do vídeo tape. À câmera nada escapa, sua missão é buscar em plano-detalhe a textura, as características corporais, flagrar as mais contidas manifestações emocionais dos convidados, prevê suas explosões diante das provocações reiteradas, e seu ímpeto de também provocar. E tudo isso aliado e envolvido pelo ingrediente principal do programa, o olhar gélido dos dois velhos olhos negros de Antonio Abujamra, o conteúdo mordaz e irrepreensível de seus questionamentos, o cinismo peculiar da cadência com que profere a seqüência das palavras que encadeiam as perguntas. O deboche didático de um gênio, um convite nada convencional para que as pessoas reflitam sobre sua postura habitual, sobre que tipo de dias estão vivendo e que tipo de sociedade estão ajudando a construir.
Notem que me estendi, amigos, espero que não o bastante para terem desistido da leitura. Mas foi por um importante propósito, que de início optei por tecer alguns comentários do formato televisivo ‘Provocações’, uma vez que o projeto ‘A voz do provocador’, de Antonio Abujamra é a versão teatralizada dessa empreitada.
'A VOZ DO PROVOCADOR', ESPECIFICAMENTE
Abujamra desembarcou em salvador neste mês de outubro com 79 anos de idade. Trouxe-nos um trabalho que denominou de ‘uma aula-espetáculo’. Certamente eu tenho algumas ressalvas a fazer sobre esta sua ‘obra’. Mas, antes de qualquer coisa, preciso registrar que sou um admirador dos trabalhos e bagagem deste artista. É possível se aprender muito com ele. Ter Abujamra no palco, em si, já podemos considerar uma situação espetacular. De outra parte, digo que o folder, como a maioria dos folders de espetáculos que vemos por aí, nos promete e fala de muita coisa cuja presença no palco jamais se vê. Mas a intenção de se propor uma aula- espetáculo e correr os quatro cantos do Brasil, levando-a para milhares de espectadores sem dúvida é interessante e, para a sobrevivência do teatro, útil sob vários aspectos.
O TEATRO DOS DEBATES...
A tese desta aula-espetáculo é sensível e sobremaneira sintonizada com a atual realidade dos fatos de uma sociedade contemporânea complexa. Abujamra, que assina o texto, a concepção, a direção e atua, em momento de feliz clarividência afirma a certa altura que no presente contexto das coisas, o teatro apenas resgatará o seu lugar de verdadeira arte da inter-subjetividade, acaso sirva como palco de debate de idéias, ao contrário senso de um mero espaço contador e reprodutor de histórias. Em outras palavras, Abu está na defesa de um teatro que não seja unicamente entretenimento, embora também possa associar-se a esta função, mas para ele, o espetáculo teatral deve, sim, ser vetor de reflexão, apuração, transformação e balanço constante dos paradigmas da sociedade. O objeto artístico teatral deve ser vivo (além de grotovsky), proporcionando uma mútua troca e crescimento entre os sujeitos criadores e os sujeitos espectadores – que obviamente, neste contexto, também serão criadores; os artistas e o público devem enfrentar com sintonia e crueldade (além de Artaud) a patente crueldade de determinados temas, tabus e realidades. Experimentar, evoluir, viver, o teatro pode e deve ser verdadeiramente inserido nesta dinâmica.
Concordo. Em todo caso, manifesto divergência às lições de Abujamra, na medida em que de minha parte acredito também se fazer possível realizar o necessário debate sobre o palco, mesmo quando se opta por contar histórias. Não podemos esquecer que a boa dramaturgia certamente nos oferece histórias dotadas de consistência e profundidade, capazes de auxiliar a contento na condução de diversas linhas de debates. Ao meu ver, tudo dependerá da qualidade da fábula, da pertinência das escolhas, da sensibilidade da encenação, do talento dos atores.
Mas entendo perfeitamente o cerne do que está sendo constatado por Antonio Abujamra. Assim como ele, já algum tempo venho dizendo que o teatro como o vemos hoje, parece até óbvio, mas muitos artistas fundamentalistas não admitem este ponto de vista, o espetáculo ou a peça de teatro tal qual o concebemos e apreciamos no presente, desaparecerá em poucas décadas. Depois de flertar, embriagar-se e ter repetidas overdoses com altas doses de pirotecnia dos atípicos recursos do cinema e da televisão, ou mesmo do grande show business, o teatro vem já há tempos manifestando uma tendência global pela retomada da estética da ‘essencialidade’, ou seja, cada vez mais artistas, produtores e público, têm caminhado na direção de um teatro sustentado na consistência temática, na economicidade de efeitos alheios ao talento dos atores e, sobretudo, têm-se buscado fazer uma arte teatral capaz de promover com o espectador uma interatividade de cunho mais utilitário do que supérfluo.
A DISPOSIÇÃO ESPACIAL...
O que se faz necessário para a realização de uma aula? Alguém que tenha experiências a compartilhar e outro(s) que queria(m) ouvir, e aprender, trocar etc. Para a realização de sua aula espetáculo, Abu precisou apenas da presença e (interação?) da platéia. À direita baixa do palco situava-se uma mesa e uma cadeira, que abrigava alguns livros e anotações do ator, de modo que Abujamra já no início do espetáculo lá se sentou levantando-se apenas ao final para receber os aplausos. Ao fundo central, situava-se uma tela onde eram projetadas imagens e vídeos que iam sendo solicitados conforme o andamento da aula-espetáculo. De sua mesa de trabalho Abu deu curso ao roteiro temático que trouxera para provocar o público soteropolitano. Com a luz de platéia na maioria do tempo ligada, o ator falava o tempo todo na direção do público. Ali leu passagens de filósofos, poetas, dramaturgos, contou algumas de suas experiências profissionais, algumas anedotas sempre com muito humor (ácido de sempre) e, sobretudo, Abujamra optou por fazer uma ponte direta com materiais que foram destaque ao longo da história de seu programa de entrevista ‘Provocações’.
FRAGILIDADES... OU, ATÉ ABUJAMRA FALHA, E CONSEGUE SER PIEGAS
Realmente esta aula-espetáculo corre o sério risco de ser vista como obsoleta e fraudulenta quando incorpora no seu bojo diversos fragmentos já há muito vistos e repetidos em cadeia nacional de televisão pública. Embora Abujamra sempre brinque que seu programa conta apenas com meia dúzia de telespectadores, o real número é bem mais significante. Talvez o veterano homem de teatro tenha sido descuidado ou presunçoso em demasiado em não proceder a elaboração de um material verdadeiramente inédito. Este é um ponto lamentável, até decepcionante.
Outra fragilidade é o fato de haver uma promessa de aula-espetáculo, ou seja, implicando a expectativa natural de uma plena interação com o público, na realização de um grande debate, que caminharia quiçá para uma mágica direção inesperada, improvisada, enfim. Ei, Abu isso não acontece, e você sabe. O espetáculo fica vergonhosamente engessado. E ao passo que o formato e a proposta da aula-espetáculo têm potencial para possibilitar uma interação sem precedentes entre artista e público, infelizmente, não é o que se vê. O que ocorre é um simulacro, uma fraude primária de interação, através de um roteiro ditadinho que trás os momentos onde se tenta forjar que chegam até Abujamra bilhetinhos supostamente oriundos do público, por onde questionariam o ator sobre perguntas sem relevâncias alguma, para nada ou para ninguém. Pra que isso? Se realmente Abujamra sabe provocar e adora ser provocado, por que agiu com tal despotismo, ou insegurança, por que não se arriscou a interagir e canalizar as desconhecidas ações e reações que certamente emergiriam de maneira inesquecível e catártica do público entre si e para com ele? Abujamra chegou a salvador dizendo que trazia na bagagem uma aula-espetáculo sincera, mas na verdade trouxe um ‘monologuinho’, requentado e costurado às custas dos arquivos do seu programa de TV. Ao artista cabe ser honesto, ainda mais, quando se ufana a grandioso. Contudo, respeito-o muito, e afirmo que a despeito dos defeitos e das incongruências contundentes porque passa esta aula-espetáculo, ainda assim seria importante que cada brasileiro pudesse ter a oportunidade de vê-la.
O PONTO POSITIVO...
O ponto positivo é que tal iniciativa pode certamente influenciar artistas e público para visitarem mais esse formato cênico. Num futuro de médio prazo, a única esperança de o teatro não entrar em completo desuso, será a de seguir a estrada de transformar-se em um espaço ativo, onde artistas-pensadores e público, também pensante, compartilharão debates e experiências acerca da vida, e da sociedade.
O que seria sim, uma alternativa para o palco, para o teatro num momento como este que vivemos (principalmente em Salvador) de completa falta de capacidade artística, talento, criatividade, ousadia, consistência intelectual. Nossos artistas locais (salve-se aí as honrosas exceções) são medíocres intelectualmente, e isso é lastimável; e não possuem nem talento nem aptidão, apenas vaidade, ainda assim, deteriorada.
Ps: Abujamra já se mostra intelectual e físicamente cansado, embora ainda seja ele e sua geração a vanguarda mais consistente do teatro nacional. Querem atestado mais explícito da total falta de brilho da atual geração de artistas? Estrelas apagadas. “vanité des vanité tout est vanité.”
Hedre Lavnzk Couto
p/ Carolina
terça-feira, outubro 18
“Mas respeito aos artistas baianos”
A frase acima é título de um vômito agressivo proferido pelo diretor teatral baiano Luiz Marfuz, em edição de A Tarde da última sexta-feira (14). Nervoso, transtornado, alucinado, com o ego profundamente abalado, teceu ele uma extensa crítica a Felipe Assis, porta-voz da curadoria do Festival Internacional de Artes Cênicas – Fiac.
O diretor manifestou profunda indignação pelo fato de seu espetáculo, ‘As Velhas’, não ter sido selecionado para integrar o referido festival. Colocou em dúvida a idoneidade da linha editorial dos curadores (que, segundo Felipe, pretendeu escolher obras cênicas que questionassem o lugar do espectador), e afirmou, que na verdade, tal celeuma evidencia a necessidade urgente de se questionar não ‘o lugar do espectador’, mas, sim, ‘o lugar do curador’.
Muito me surpreendeu este esboço de revolta engajada de Luiz Marfuz. Não que eu já não soubesse que movido por interesses individuais ele bem que pode ser truculento. Ou que, se sentindo preterido ele pudesse fazer uma zoada do ‘cão’. Agora, esperar que as pessoas acreditem na veracidade desta sua nova faceta de defensor eleito das causas coletivas do teatro da Bahia, ah faça-me o favor, cara-de-pau. Logo, você, professor, um dos individualistas mais nocivos e deletérios desta terra sem rumo.
Não sou um observador assíduo da breve história do FIAC, embora quando ainda morava integralmente na Bahia, costumava brincar com amigos da área - que tomara Deus não fosse mais um ‘Fiasco’. Contudo, eu vi essa peça assinada por Marfuz, que ele tanto teima em defender a qualidade, a genialidade, a qualidade, e um milhão de outras coisas mais...
Neste blog, incluso, há uma crítica de ‘As Velhas’, as velhas maneiras de um artista cansado e atônito teimar em querer enganar o público. Um negócio vergonhoso a que não merece receber o nome de ‘espetáculo’. Folgo em saber que os curadores não o relacionaram entre as atrações baianas, nos envergonharia, certamente.
Na verdade, a revolta de Marfuz mostra a fúria de um adulto que já deveria ter a aprendido a moderar os seus ímpetos. Qual uma criança birrenta, sempre acostumada a ganhar os melhores brinquedos, e sem nunca merecê-los de fato, Marfuz, que sempre teve tudo quanto é espetáculo seu relacionado para tudo quanto é festival, e sempre foi curador de tudo quanto é panorama de teatro no norte nordeste, (pasmem! Essas incongruências mesquinhas acontecem a esmo), agora o pseudo-coletivista arreganha as garras em direção de Felipe Assis e dos curadores. Mas é só o começo, ou ele aprende que o público não aceita mais os seus monstrengos capengas, ou sua máscara de divindade será seriamente comprometida... Peças de Marfuz eu tenho aconselhado para masoquistas...
Sim! Os artistas baianos merecem mais respeito. Mas, sim! Os espectadores baianos merecem em igual medida. E quem quer respeito, tem que se dar ao respeito. Como podem pleitear respeito - guardadas as honrosas exceções de praxe dos verdadeiros artistas – um imenso número de sujeitos sem brilho, sem criatividade, sem talento, medíocres e invejosos.
E sim, Marfuz: Seu “espetáculo” é sem qualidade, seus atores são ruins, e mal dirigidos, o tema sertanejo da forma que você o tratou é anacrônico, sim; sua direção é medíocre, e você, tem menosprezado o público, também tem se tornado um diretor medíocre. Aliás, bem na linha daqueles que você tem ajudado a formar.
Vá chorar no pé do caboclo, rapaz.
Hedre Lavnzk Couto
O diretor manifestou profunda indignação pelo fato de seu espetáculo, ‘As Velhas’, não ter sido selecionado para integrar o referido festival. Colocou em dúvida a idoneidade da linha editorial dos curadores (que, segundo Felipe, pretendeu escolher obras cênicas que questionassem o lugar do espectador), e afirmou, que na verdade, tal celeuma evidencia a necessidade urgente de se questionar não ‘o lugar do espectador’, mas, sim, ‘o lugar do curador’.
Muito me surpreendeu este esboço de revolta engajada de Luiz Marfuz. Não que eu já não soubesse que movido por interesses individuais ele bem que pode ser truculento. Ou que, se sentindo preterido ele pudesse fazer uma zoada do ‘cão’. Agora, esperar que as pessoas acreditem na veracidade desta sua nova faceta de defensor eleito das causas coletivas do teatro da Bahia, ah faça-me o favor, cara-de-pau. Logo, você, professor, um dos individualistas mais nocivos e deletérios desta terra sem rumo.
Não sou um observador assíduo da breve história do FIAC, embora quando ainda morava integralmente na Bahia, costumava brincar com amigos da área - que tomara Deus não fosse mais um ‘Fiasco’. Contudo, eu vi essa peça assinada por Marfuz, que ele tanto teima em defender a qualidade, a genialidade, a qualidade, e um milhão de outras coisas mais...
Neste blog, incluso, há uma crítica de ‘As Velhas’, as velhas maneiras de um artista cansado e atônito teimar em querer enganar o público. Um negócio vergonhoso a que não merece receber o nome de ‘espetáculo’. Folgo em saber que os curadores não o relacionaram entre as atrações baianas, nos envergonharia, certamente.
Na verdade, a revolta de Marfuz mostra a fúria de um adulto que já deveria ter a aprendido a moderar os seus ímpetos. Qual uma criança birrenta, sempre acostumada a ganhar os melhores brinquedos, e sem nunca merecê-los de fato, Marfuz, que sempre teve tudo quanto é espetáculo seu relacionado para tudo quanto é festival, e sempre foi curador de tudo quanto é panorama de teatro no norte nordeste, (pasmem! Essas incongruências mesquinhas acontecem a esmo), agora o pseudo-coletivista arreganha as garras em direção de Felipe Assis e dos curadores. Mas é só o começo, ou ele aprende que o público não aceita mais os seus monstrengos capengas, ou sua máscara de divindade será seriamente comprometida... Peças de Marfuz eu tenho aconselhado para masoquistas...
Sim! Os artistas baianos merecem mais respeito. Mas, sim! Os espectadores baianos merecem em igual medida. E quem quer respeito, tem que se dar ao respeito. Como podem pleitear respeito - guardadas as honrosas exceções de praxe dos verdadeiros artistas – um imenso número de sujeitos sem brilho, sem criatividade, sem talento, medíocres e invejosos.
E sim, Marfuz: Seu “espetáculo” é sem qualidade, seus atores são ruins, e mal dirigidos, o tema sertanejo da forma que você o tratou é anacrônico, sim; sua direção é medíocre, e você, tem menosprezado o público, também tem se tornado um diretor medíocre. Aliás, bem na linha daqueles que você tem ajudado a formar.
Vá chorar no pé do caboclo, rapaz.
Hedre Lavnzk Couto
domingo, setembro 18
Crítica do espetáculo Pólvora e Poesia
Pela primeira vez estive no Centro Cultural Barroquinha. É um bom espaço, com grande potencial para diretores e artistas corajosos darem as caras às tapas. Ou às palmas, como alguns devem preferir. Fui ver esta outra peça do Fernando Guerreiro, devendo mesmo admitir que dele me agrada mais a coragem do que a busca do senso eclético.
‘Pólvora e Poesia’ tem como pretexto dramático apresentar a conturbada história da famosa relação passional vivida pelos poetas Arthur Rimbaud (Talis Castro) e Paul Verlaine (Caio Rodrigo). Diante da trama, o público é levado a refletir se há realmente limites e diferenças entre o amor e a paixão. Se são sentimentos idênticos, ou complementares ou excludentes. O interessante é que na platéia, com certeza, deve ter havido espectadores com os mais variados pontos de vista, e os artistas? O que pensam...?
Em teatro é importante conseguir concretizar o que se pensa. Um escritor disse certa vez que “amor são dois corpos querendo se destruir.”, li, e achei essa uma boa definição para a paixão. Não há amor entre os personagens históricos Rimbaud e Verlaine e, sim, egoísmo. Necessidade de destruir o outro para ter, ter para destruir. Ou seja, paixão, sexo. E se eu ator, diretor vou falar disso sobre o palco, precisarei arrebatar o público.
Falta absinto a este trabalho de Fernando Guerreiro. Por outro lado, a montagem é coerente em linhas gerais. Fazendo claramente opção por uma linha épica de narrativa, a encenação é bem cuidada, detalhista e inteligente. A área cênica é configurada por um quadrado, com a platéia em volta. O Cenário de Rodrigo Frota funciona bem: uma grande mesa no centro do palco, mais duas cadeiras, e livros soltos por toda a parte.
A peça tem início com os dois atores já em cena. Rimbaud deitado numa das extremidades da mesa - Registre-se que a maior parte da ação ocorrerá sobre ela – e Verlaine concentrado noutro ponto. De repente, através de um efeito bem executado, a mesa ‘quebra-se’ ao meio, formando duas rampas unidas pelas extremidades mais baixas. E aí teremos por todo o espetáculo uma bela metáfora visual: a grande mesa como o caminho da vida, o livro, a ser escrito, percorrido. Ao fraturar-se ao meio, simbolizando duas trajetórias que se chocam, se unem em seus extremos, para depois partirem. Eis, pois, a própria paixão. Mas isso foi a minha viagem de espectador, sabe lá Deus se alguém pensou nisso.
No primeiro momento da peça, usa-se outro subterfúgio do épico, quando Verlaine, dando a entender que estivesse num Júri, fala diretamente à platéia. Este momento não é bom. Caio gesticula muito, imposta a voz além da conta, chegando quase a declamar. Na seqüência, é a vez de Rimbaud contar do seu passado. Também para Talis este é um momento problemático – não se consegue entender a quem ele se dirige, muitos gritos, bastante impostação.
É razoável separar o tipo de interpretação desta peça em três blocos: o primeiro momento é estabelecido por dois monólogos (para cada personagem). Cada um monologa na sua vez. Aqui não há contracena. O que mais chama a atenção é o excesso de gesticulação do ator Caio. Na segunda etapa verifica-se uma espécie de contracena, quando ambos dividem, cada qual em suas marcas, a leitura de trechos de cartas enviadas por Rimbaud. O terceiro modo é a fase da contracena direta, quando da chegada de Rimbaud à casa de Verlaine. Daí em diante, as modalidades de interpretação se sucedem a sabor da intenção do diretor.
Foi realmente boa a escolha de promover a encenação no salão rústico do Centro cultural. Por outro lado, o tipo de disposição cênica adotado, o quadrado, onde os atores estão mais próximos do público, pode acabar numa cilada, só funcionará plenamente se a interpretação contar com o vigor requerido. A movimentação dos atores é boa. A prontidão e a entrega corporal que eles apresentam é uma das coisas mais gratificantes da noite.
Mas a peça não choca pelo nu de dois personagens roçando uma genitália na outra e, sim, porque os atores ao invés de interpretarem, declamam. Com isso o necessário mergulho na embriaguez passional do poetas não acontece. A bela proposta do conflito é dissolvida na exposição de uma fábula que se torna boba. Talvez falte um bocadinho de experiência a Talis, como quando ele fala enquanto joga uma cadeira ao chão, e não se ouve nada do que é dito.
Em suma, a maior deficiência da peça é a interpretação, ambos os atores não conseguem nos brindar com a “essência do amor entre duas figuras fortes, brilhantes e contraditórias”, com suas “raivas, ideais, entusiasmo, tédio”, estes sentimentos os interpretes de Guerreiro não conseguem expressar o suficiente para arrebatar-nos.
Em todo caso, Fernando aplica direitinho a receita épica do bolo: monólogos entrecruzados; quebra da quarta-parede; dureza de luzes brancas, a pino, que, em certos momentos, acendem sobre os espectadores; rejeição à caixa à italiana; originais ruídos na trilha sonora; figurinos que vão virando farrapos à medida que os personagens se destroem psicologicamente.
Os figurinos de Hamilton Lima são bons; a iluminação de Luciana Liege é competente; a direção musica de Juracy do amor ajuda muito ao todo; e o texto de Alcides Nogueira, não sei até que ponto foi adaptado.
Hedre Lavnzk Couto
p/ Carolina
‘Pólvora e Poesia’ tem como pretexto dramático apresentar a conturbada história da famosa relação passional vivida pelos poetas Arthur Rimbaud (Talis Castro) e Paul Verlaine (Caio Rodrigo). Diante da trama, o público é levado a refletir se há realmente limites e diferenças entre o amor e a paixão. Se são sentimentos idênticos, ou complementares ou excludentes. O interessante é que na platéia, com certeza, deve ter havido espectadores com os mais variados pontos de vista, e os artistas? O que pensam...?
Em teatro é importante conseguir concretizar o que se pensa. Um escritor disse certa vez que “amor são dois corpos querendo se destruir.”, li, e achei essa uma boa definição para a paixão. Não há amor entre os personagens históricos Rimbaud e Verlaine e, sim, egoísmo. Necessidade de destruir o outro para ter, ter para destruir. Ou seja, paixão, sexo. E se eu ator, diretor vou falar disso sobre o palco, precisarei arrebatar o público.
Falta absinto a este trabalho de Fernando Guerreiro. Por outro lado, a montagem é coerente em linhas gerais. Fazendo claramente opção por uma linha épica de narrativa, a encenação é bem cuidada, detalhista e inteligente. A área cênica é configurada por um quadrado, com a platéia em volta. O Cenário de Rodrigo Frota funciona bem: uma grande mesa no centro do palco, mais duas cadeiras, e livros soltos por toda a parte.
A peça tem início com os dois atores já em cena. Rimbaud deitado numa das extremidades da mesa - Registre-se que a maior parte da ação ocorrerá sobre ela – e Verlaine concentrado noutro ponto. De repente, através de um efeito bem executado, a mesa ‘quebra-se’ ao meio, formando duas rampas unidas pelas extremidades mais baixas. E aí teremos por todo o espetáculo uma bela metáfora visual: a grande mesa como o caminho da vida, o livro, a ser escrito, percorrido. Ao fraturar-se ao meio, simbolizando duas trajetórias que se chocam, se unem em seus extremos, para depois partirem. Eis, pois, a própria paixão. Mas isso foi a minha viagem de espectador, sabe lá Deus se alguém pensou nisso.
No primeiro momento da peça, usa-se outro subterfúgio do épico, quando Verlaine, dando a entender que estivesse num Júri, fala diretamente à platéia. Este momento não é bom. Caio gesticula muito, imposta a voz além da conta, chegando quase a declamar. Na seqüência, é a vez de Rimbaud contar do seu passado. Também para Talis este é um momento problemático – não se consegue entender a quem ele se dirige, muitos gritos, bastante impostação.
É razoável separar o tipo de interpretação desta peça em três blocos: o primeiro momento é estabelecido por dois monólogos (para cada personagem). Cada um monologa na sua vez. Aqui não há contracena. O que mais chama a atenção é o excesso de gesticulação do ator Caio. Na segunda etapa verifica-se uma espécie de contracena, quando ambos dividem, cada qual em suas marcas, a leitura de trechos de cartas enviadas por Rimbaud. O terceiro modo é a fase da contracena direta, quando da chegada de Rimbaud à casa de Verlaine. Daí em diante, as modalidades de interpretação se sucedem a sabor da intenção do diretor.
Foi realmente boa a escolha de promover a encenação no salão rústico do Centro cultural. Por outro lado, o tipo de disposição cênica adotado, o quadrado, onde os atores estão mais próximos do público, pode acabar numa cilada, só funcionará plenamente se a interpretação contar com o vigor requerido. A movimentação dos atores é boa. A prontidão e a entrega corporal que eles apresentam é uma das coisas mais gratificantes da noite.
Mas a peça não choca pelo nu de dois personagens roçando uma genitália na outra e, sim, porque os atores ao invés de interpretarem, declamam. Com isso o necessário mergulho na embriaguez passional do poetas não acontece. A bela proposta do conflito é dissolvida na exposição de uma fábula que se torna boba. Talvez falte um bocadinho de experiência a Talis, como quando ele fala enquanto joga uma cadeira ao chão, e não se ouve nada do que é dito.
Em suma, a maior deficiência da peça é a interpretação, ambos os atores não conseguem nos brindar com a “essência do amor entre duas figuras fortes, brilhantes e contraditórias”, com suas “raivas, ideais, entusiasmo, tédio”, estes sentimentos os interpretes de Guerreiro não conseguem expressar o suficiente para arrebatar-nos.
Em todo caso, Fernando aplica direitinho a receita épica do bolo: monólogos entrecruzados; quebra da quarta-parede; dureza de luzes brancas, a pino, que, em certos momentos, acendem sobre os espectadores; rejeição à caixa à italiana; originais ruídos na trilha sonora; figurinos que vão virando farrapos à medida que os personagens se destroem psicologicamente.
Os figurinos de Hamilton Lima são bons; a iluminação de Luciana Liege é competente; a direção musica de Juracy do amor ajuda muito ao todo; e o texto de Alcides Nogueira, não sei até que ponto foi adaptado.
Hedre Lavnzk Couto
p/ Carolina
quarta-feira, agosto 17
Crítica do espetáculo ‘Casa número nada’, ou, o monólogo da vulva azul
O culpado pelo acidente de percurso foi Fernando Neves (amigo querido de boa data e ator (dos bons!) a quem tive a honra de ter sob minha direção nos espetáculos ‘A Mulher Sem Pecado’ – 2007; e ‘Os Sete Gatinhos’ – 2008; ambos, da obra do inesgotável Nelson Rodrigues.), nos encontramos ao acaso, nas imediações dos Barris, Neves seguia para o teatro, e como me divirto muito em sua presença, acompanhei-o.
E lá fomos nós ao Teatro Xisto Bahia. Um monólogo com dramaturgia e direção de Fábio Vidal. Um Solo da atriz Mariana Freire. Vamos ao trabalho: a direção optou por subverter a rígida disposição palco-platéia (‘à italiana’) do Teatro Xisto, estabelecendo uma outra convenção de caixa cênica [não menos rígida que a primeira], aplicando uma configuração onde, com uso de fita crepe, desenhou-se no tablado uma planta baixa de uma espécie de apartamento 1/4 sala, e o público, por sua vez, assentou-se em torno dos lados do quadrado. Com esta opção (que ultimamente tem virado moda entre nós), Vidal, por certo, pretendia criar no espectador a sensação de estar dentro de certa ‘casa número nada’. Esta impressão, entretanto, ele não conseguiu produzir, e este é apenas um dos diversos problemas do espetáculo.
A dramaturgia apresentada por Fábio Vidal é incompreensível. Não se compreende o cerne do discurso. Atira-se, desse modo, para todos os lados, é como aquela velha imagem de um liquidificador megalomaníaco, que quer mastigar o mundo todo, e que associado a um ventilador bêbado, deseja cuspir baboseiras mal cheirosas na cara do espectador-pecador. Li o jornal ‘A Tarde’ onde o diretor diz que seu monólogo discute questões como o vazio existencial; a retirada da segurança material; o sistema capitalista de consumo; e o “ter” versus o “ser”. Porém, na peça, que é onde realmente interessa aparecer, nada disso é percebido. Nada. O que fatalmente leva o espectador a concluir, que, a julgar por este atual trabalho, Fábio Vidal é melhor candidato a filósofo que diretor (dramaturgo) de teatro.
Os dilemas do mundo aí estão. O artista, o dramaturgo, o ator, o funâmbulo, ou sei lá quem mais, podem optar por viver como homens de seu tempo ou não. Mas, sobretudo, faz-se necessário livrar-se da tentação de construir qualquer ‘samba-do-maneca-cego’ e apresentá-lo ao mundo como grande supra-sumo da arte moderna. O artista não pode curvar-se diante da tentação da facilidade. Certos temas tão batidos, e tão reivindicados como chaves para o entendimento e transformação da complexidade da sociedade moderna, como o consumismo; o capitalismo; o individualismo; a solidão etc são, longe de dúvida, fontes poderosas para a produção de objetos artísticos do mais alto valor. Porém, aquilo que de pior pode haver num artista é a incapacidade de autocrítica. Certas coisas, não se podem apresentar, nem sozinhos, ao espelho. Sob pena de ele quebrar-se.
O monólogo de Vidal e Mariana dura intermináveis 62 minutos. E, neste ínterim, não se trata, em momento algum, da tal da ‘retirada da segurança material’; mas, sim, de insegurança artística. Não se discute ‘vazio existencial’; porém, antes, vazio criativo-técnico. E o único “ter” que se revela, é o da esterilidade de talento e incapacidade de realização, versus o “ser” do auto-engano.
A personagem de M. Freire adentra à planta baixa da ‘casa número nada’, e lá, como que dominada por sucessivos e alternados ataques de esquizofrenia, neurastenia, gritinhos histéricos de toda sorte, e uma aura geral de psicopatia mística, debate-se contra o chão, vomita desesperadamente diversos assuntos e passagens obscuras; bufa, mija, baba, chora, e , sobretudo, num momento apoteótico – exibe a vulva! Espetáculos como este afastam os - já tão raros – espectadores do teatro. Não se aproveita nada dessa peça. Não há um aspecto, sequer, que se salve.
O ridículo vai desde os estridentes gritos de Mariana; à total inabilidade do trabalho corporal; ao descalabro de uma perigosa escalada psíquico-emocional que chega a dar pena (do ‘papelão’) da atriz em cena. Sem contar do desconforto de um público atônito e mártir, diante da confissão cênica atabalhoada de uma direção que se rende perante o invertebrado monstro que criou.
Não se entende patavina da construção da personagem de Mariana. Em cena, parecia uma adolescente em peça colegial, desesperada para salvar, que fosse, meio minuto de sua representação. Mas como ‘o inferno são os olhos dos outros’, diretor e atriz, não hesitaram em nos conferir grande e sacrificiosa prova de amor pelo bem da arte: aderiram, euforicamente, à banalização do nu.
Porque assim é que é: peça de teatro que se preze, tem que mostrar a vulva, meu chapa! Já é longa tradição entre nós. Se se percebe que o espetáculo é fraco em arte, apela-se, vaidosamente, para o desfile das vaginas ávidas por uns segundos de exposição deslumbrante. Nossos artistas modernos e descolados – que sabidamente pouco lêem nem estudam – descobriram a pólvora, ou melhor, a força das curvas e dos pêlos pubianos. E, iluminados, decidiram: “queremos chocar esse público sem-gracinha, normalzinho e pançudinho!”. Mal sabem eles (os artistas retados de plantão) que as vulvas já não são tão perigosas, e que, quase todos já temos, pelo menos, uma dessas feras em casa. O que choca, de verdade, nestes dias, é a tamanha falta de talento sobre os nossos palcos.
Visto em quarta-feira, 17-08-11. Salvador-bahia-brasil.
p/ Carol.
Hedre Lavnzk Couto
E lá fomos nós ao Teatro Xisto Bahia. Um monólogo com dramaturgia e direção de Fábio Vidal. Um Solo da atriz Mariana Freire. Vamos ao trabalho: a direção optou por subverter a rígida disposição palco-platéia (‘à italiana’) do Teatro Xisto, estabelecendo uma outra convenção de caixa cênica [não menos rígida que a primeira], aplicando uma configuração onde, com uso de fita crepe, desenhou-se no tablado uma planta baixa de uma espécie de apartamento 1/4 sala, e o público, por sua vez, assentou-se em torno dos lados do quadrado. Com esta opção (que ultimamente tem virado moda entre nós), Vidal, por certo, pretendia criar no espectador a sensação de estar dentro de certa ‘casa número nada’. Esta impressão, entretanto, ele não conseguiu produzir, e este é apenas um dos diversos problemas do espetáculo.
A dramaturgia apresentada por Fábio Vidal é incompreensível. Não se compreende o cerne do discurso. Atira-se, desse modo, para todos os lados, é como aquela velha imagem de um liquidificador megalomaníaco, que quer mastigar o mundo todo, e que associado a um ventilador bêbado, deseja cuspir baboseiras mal cheirosas na cara do espectador-pecador. Li o jornal ‘A Tarde’ onde o diretor diz que seu monólogo discute questões como o vazio existencial; a retirada da segurança material; o sistema capitalista de consumo; e o “ter” versus o “ser”. Porém, na peça, que é onde realmente interessa aparecer, nada disso é percebido. Nada. O que fatalmente leva o espectador a concluir, que, a julgar por este atual trabalho, Fábio Vidal é melhor candidato a filósofo que diretor (dramaturgo) de teatro.
Os dilemas do mundo aí estão. O artista, o dramaturgo, o ator, o funâmbulo, ou sei lá quem mais, podem optar por viver como homens de seu tempo ou não. Mas, sobretudo, faz-se necessário livrar-se da tentação de construir qualquer ‘samba-do-maneca-cego’ e apresentá-lo ao mundo como grande supra-sumo da arte moderna. O artista não pode curvar-se diante da tentação da facilidade. Certos temas tão batidos, e tão reivindicados como chaves para o entendimento e transformação da complexidade da sociedade moderna, como o consumismo; o capitalismo; o individualismo; a solidão etc são, longe de dúvida, fontes poderosas para a produção de objetos artísticos do mais alto valor. Porém, aquilo que de pior pode haver num artista é a incapacidade de autocrítica. Certas coisas, não se podem apresentar, nem sozinhos, ao espelho. Sob pena de ele quebrar-se.
O monólogo de Vidal e Mariana dura intermináveis 62 minutos. E, neste ínterim, não se trata, em momento algum, da tal da ‘retirada da segurança material’; mas, sim, de insegurança artística. Não se discute ‘vazio existencial’; porém, antes, vazio criativo-técnico. E o único “ter” que se revela, é o da esterilidade de talento e incapacidade de realização, versus o “ser” do auto-engano.
A personagem de M. Freire adentra à planta baixa da ‘casa número nada’, e lá, como que dominada por sucessivos e alternados ataques de esquizofrenia, neurastenia, gritinhos histéricos de toda sorte, e uma aura geral de psicopatia mística, debate-se contra o chão, vomita desesperadamente diversos assuntos e passagens obscuras; bufa, mija, baba, chora, e , sobretudo, num momento apoteótico – exibe a vulva! Espetáculos como este afastam os - já tão raros – espectadores do teatro. Não se aproveita nada dessa peça. Não há um aspecto, sequer, que se salve.
O ridículo vai desde os estridentes gritos de Mariana; à total inabilidade do trabalho corporal; ao descalabro de uma perigosa escalada psíquico-emocional que chega a dar pena (do ‘papelão’) da atriz em cena. Sem contar do desconforto de um público atônito e mártir, diante da confissão cênica atabalhoada de uma direção que se rende perante o invertebrado monstro que criou.
Não se entende patavina da construção da personagem de Mariana. Em cena, parecia uma adolescente em peça colegial, desesperada para salvar, que fosse, meio minuto de sua representação. Mas como ‘o inferno são os olhos dos outros’, diretor e atriz, não hesitaram em nos conferir grande e sacrificiosa prova de amor pelo bem da arte: aderiram, euforicamente, à banalização do nu.
Porque assim é que é: peça de teatro que se preze, tem que mostrar a vulva, meu chapa! Já é longa tradição entre nós. Se se percebe que o espetáculo é fraco em arte, apela-se, vaidosamente, para o desfile das vaginas ávidas por uns segundos de exposição deslumbrante. Nossos artistas modernos e descolados – que sabidamente pouco lêem nem estudam – descobriram a pólvora, ou melhor, a força das curvas e dos pêlos pubianos. E, iluminados, decidiram: “queremos chocar esse público sem-gracinha, normalzinho e pançudinho!”. Mal sabem eles (os artistas retados de plantão) que as vulvas já não são tão perigosas, e que, quase todos já temos, pelo menos, uma dessas feras em casa. O que choca, de verdade, nestes dias, é a tamanha falta de talento sobre os nossos palcos.
Visto em quarta-feira, 17-08-11. Salvador-bahia-brasil.
p/ Carol.
Hedre Lavnzk Couto
Crítica do espetáculo ‘Uma vez, nada mais’
Bom espetáculo. ‘Uma vez, nada mais’ é preciso e honesto. Executando uma direção digna daquela máxima – o bom teatro é aquele onde o espectador não percebe a mão do diretor -, mas sem deixar de ser rigorosa e detalhista, Hebe Alves mostrou-se extremamente generosa e cuidadosa na orquestração de seus artistas e elementos do espetáculo. E o resultado é uma ‘divertida “tragédia amorosa”’.
A pesquisa de concepção, roteiro e trama foi empreendida conjuntamente pela diretora e as atrizes Aícha Marques e Maria Menezes. E ao que parece mergulharam com afinco na investigação de um vasto material, se propondo a visitar relíquias estéticas do cinema ‘mudo’; e do rádio antigo (com seus impagáveis programas, vinhetas publicitárias e músicas). Em verdade, transparece uma vontade das artistas em resgatar a inocência e beleza de um tempo que foi e não volta mais. E com isso, reviver a inocência e plenitude de uma arte [a teatral] em avançado estágio de extinção. A vazão disso é dada através da criação de uma fábula singela e cotidiana, banhada de delicioso lirismo. Sendo que, para tanto, as atrizes se entregaram à busca daquilo que alguns teóricos denominariam de a ‘dramaturgia do ator’.
‘Uma vez, nada mais’ é, sobretudo, teatro de ator – e talvez nisso resida seu encanto maior! Aícha Marques e Maria Menezes fazem um espetáculo onde o diálogo verbal – pelo menos em sua acepção natural – não existe. Suas personagens se comunicam (entre si) e com o espectador por meio da linguagem dos movimentos do corpo. Mas a linguagem empreendida por elas está longe de ser a linguagem corporal comum: ao contrário, tais partituras apresentam inusitada complexidade na realização do tempo, do ritmo, do desenho e da extensão. Atrizes-autoras, certamente, foram beber das influências da tradição da pantomima, da mímica, e da reinvenção disso tudo! – com o advento do cinema ‘mudo’ (quer-se dizer, da imagem em movimento, com velocidade específica) – concretizada num outro momento da expressão corporal-gestual-artistica. E assim, Maria e Aícha nos apresenta sob forma de performances, talentosas e disciplinadas, a inegável constatação de que o corpo e os gestos têm muito a nos dizer a respeito da personalidade e do comportamento emocional dos indivíduos. Ambas executam com tal domínio o seu trabalho sobre o palco, que nós – público – chegamos a achar que aquilo tudo é simples, fácil de fazer, porque nos parece muitíssimo divertido. E nisso mora a verdadeira arte (os bailarinos o sabem bem) o esforço e a técnica jamais devem ser denunciados.
Em cena, o roteiro é ‘impresso’ pela própria trilha sonora. Ou poderíamos dizer que a trilha sonora é a essência do próprio roteiro. Hebe Alves elegeu o rádio como elemento condutor do desenrolar das situações. De maneira que um intervalo comercial, uma música, um trecho de uma fala de locutor, ou simplesmente a troca de uma estação por outra, já pode significar a alternância de cena para a situação seguinte. O material radiofônico usado, em sua maioria, é bastante interessante, e existe um ótimo trabalho de sincronia entre ele e os movimentos das atrizes. Porém, o espetáculo perde um pouco de sua originalidade e força, quando, por volta de 1 hora de duração, começa-se a fazer uso de material (áudio) de tele-novelas. E uma vez que o público já se encontra enfadado delas no dia-dia, há uma baixa. O que evidentemente é uma pena, porque a peça não necessitava correr esse risco ingrato. E aqui aproveito para ressaltar que o espetáculo deveria contar o tempo máximo de 60 minutos. Pois o público está irremediavelmente acostumado com o diálogo verbal, tão disseminado pela nossa realidade saturada de veículos de comunicação de massa, que esperar da platéia que ela se interesse em longo tempo por uma comédia 'muda', torna-se meio utópico. Subestimar esse fato é perigoso, penso.
Mesmo assim, em linhas gerais, pode-se sustentar que a encenação busca uma aproximação com a estética do cinema ‘mudo’, notadamente o chapliano. Mas, observem: eu disse ‘aproximação’ e não ‘imitação’. E esta opção foi sobremaneira inteligente. Haja vista que o cinema ‘mudo’ só existiu de forma tão marcante porque absorveu para si importantes traços da teatralidade. Ao que neste sentido, Hebe Alves e suas instigantes atrizes somente fizeram reaver, ao palco, algo que lhe é historicamente inerente.
Também na plástica segue-se por este caminho. O cenário e figurinos de Zuarte Júnior trazem uma aura retrô, trabalhando basicamente a indução visual de um ambiente p/b (preto/branco), quebrado deliberadamente, em alguns momentos, por um objeto vermelho (uma almofada em forma de coração), e por um dos figurinos (também vermelho) da personagem de Aicha. A luz, de Fábio Espírito Santo e maquiagem, de Marie Thauront, colaboram em imprescindível harmonia com o contexto almejado.
E fecho a sinopse: o espetáculo é bom. Digno. Confesso que tive dificuldade para tirar os olhos do que acontecia em cena. Em salvador, é um dos poucos trabalhos teatrais que se recomendaria a um amigo exigente. Embora o fato de ser tão dependente da trilha sonora (ótimo material de Brain Knave) enfraqueça a peça.
Visto em sábado (13=08-11), no teatro Jorge Amado. Em salvador-bahia-brasil.
p/ você, Carol.
Hedre Lavnzk Couto
A pesquisa de concepção, roteiro e trama foi empreendida conjuntamente pela diretora e as atrizes Aícha Marques e Maria Menezes. E ao que parece mergulharam com afinco na investigação de um vasto material, se propondo a visitar relíquias estéticas do cinema ‘mudo’; e do rádio antigo (com seus impagáveis programas, vinhetas publicitárias e músicas). Em verdade, transparece uma vontade das artistas em resgatar a inocência e beleza de um tempo que foi e não volta mais. E com isso, reviver a inocência e plenitude de uma arte [a teatral] em avançado estágio de extinção. A vazão disso é dada através da criação de uma fábula singela e cotidiana, banhada de delicioso lirismo. Sendo que, para tanto, as atrizes se entregaram à busca daquilo que alguns teóricos denominariam de a ‘dramaturgia do ator’.
‘Uma vez, nada mais’ é, sobretudo, teatro de ator – e talvez nisso resida seu encanto maior! Aícha Marques e Maria Menezes fazem um espetáculo onde o diálogo verbal – pelo menos em sua acepção natural – não existe. Suas personagens se comunicam (entre si) e com o espectador por meio da linguagem dos movimentos do corpo. Mas a linguagem empreendida por elas está longe de ser a linguagem corporal comum: ao contrário, tais partituras apresentam inusitada complexidade na realização do tempo, do ritmo, do desenho e da extensão. Atrizes-autoras, certamente, foram beber das influências da tradição da pantomima, da mímica, e da reinvenção disso tudo! – com o advento do cinema ‘mudo’ (quer-se dizer, da imagem em movimento, com velocidade específica) – concretizada num outro momento da expressão corporal-gestual-artistica. E assim, Maria e Aícha nos apresenta sob forma de performances, talentosas e disciplinadas, a inegável constatação de que o corpo e os gestos têm muito a nos dizer a respeito da personalidade e do comportamento emocional dos indivíduos. Ambas executam com tal domínio o seu trabalho sobre o palco, que nós – público – chegamos a achar que aquilo tudo é simples, fácil de fazer, porque nos parece muitíssimo divertido. E nisso mora a verdadeira arte (os bailarinos o sabem bem) o esforço e a técnica jamais devem ser denunciados.
Em cena, o roteiro é ‘impresso’ pela própria trilha sonora. Ou poderíamos dizer que a trilha sonora é a essência do próprio roteiro. Hebe Alves elegeu o rádio como elemento condutor do desenrolar das situações. De maneira que um intervalo comercial, uma música, um trecho de uma fala de locutor, ou simplesmente a troca de uma estação por outra, já pode significar a alternância de cena para a situação seguinte. O material radiofônico usado, em sua maioria, é bastante interessante, e existe um ótimo trabalho de sincronia entre ele e os movimentos das atrizes. Porém, o espetáculo perde um pouco de sua originalidade e força, quando, por volta de 1 hora de duração, começa-se a fazer uso de material (áudio) de tele-novelas. E uma vez que o público já se encontra enfadado delas no dia-dia, há uma baixa. O que evidentemente é uma pena, porque a peça não necessitava correr esse risco ingrato. E aqui aproveito para ressaltar que o espetáculo deveria contar o tempo máximo de 60 minutos. Pois o público está irremediavelmente acostumado com o diálogo verbal, tão disseminado pela nossa realidade saturada de veículos de comunicação de massa, que esperar da platéia que ela se interesse em longo tempo por uma comédia 'muda', torna-se meio utópico. Subestimar esse fato é perigoso, penso.
Mesmo assim, em linhas gerais, pode-se sustentar que a encenação busca uma aproximação com a estética do cinema ‘mudo’, notadamente o chapliano. Mas, observem: eu disse ‘aproximação’ e não ‘imitação’. E esta opção foi sobremaneira inteligente. Haja vista que o cinema ‘mudo’ só existiu de forma tão marcante porque absorveu para si importantes traços da teatralidade. Ao que neste sentido, Hebe Alves e suas instigantes atrizes somente fizeram reaver, ao palco, algo que lhe é historicamente inerente.
Também na plástica segue-se por este caminho. O cenário e figurinos de Zuarte Júnior trazem uma aura retrô, trabalhando basicamente a indução visual de um ambiente p/b (preto/branco), quebrado deliberadamente, em alguns momentos, por um objeto vermelho (uma almofada em forma de coração), e por um dos figurinos (também vermelho) da personagem de Aicha. A luz, de Fábio Espírito Santo e maquiagem, de Marie Thauront, colaboram em imprescindível harmonia com o contexto almejado.
E fecho a sinopse: o espetáculo é bom. Digno. Confesso que tive dificuldade para tirar os olhos do que acontecia em cena. Em salvador, é um dos poucos trabalhos teatrais que se recomendaria a um amigo exigente. Embora o fato de ser tão dependente da trilha sonora (ótimo material de Brain Knave) enfraqueça a peça.
Visto em sábado (13=08-11), no teatro Jorge Amado. Em salvador-bahia-brasil.
p/ você, Carol.
Hedre Lavnzk Couto
terça-feira, agosto 9
Crítica do espetáculo ‘As Velhas’
‘Um homem é um homem’, de B. Brecht, encenado pelo Grupo Galpão, é, sem dúvida, o melhor espetáculo de teatro já visto por mim. Os artistas mineiros, naquela peça, exploraram brilhantemente os recursos da narrativa épica do teatro brechtiano. Um espetáculo impressionante. Que tenho até hoje, com carinho e gratidão, guardado na memória.
Mas aquela noite prazerosa, vivida na sala principal do Teatro Castro Alves, ficou no passado. Na noite de hoje estou no Teatro Sesc Pelourinho. Tomo meu assento na platéia. Vai começar ‘As Velhas’. Começa. Como sempre, estou concentrado. Atento a tudo e a todos sobre o palco. O tempo vai passando. E eu observo. E pondero. Observo. E pondero. Sou daqueles espectadores que sempre saem de casa otimistas. Sempre torcendo pela encenação. A cabeça inicia um momento crítico da ebulição. E então surgem as minhas primeiras anotações: ‘Não consigo entender. Que situações são estas em cena? Quem são eles? Onde estão? O que estão fazendo? É este, o objetivo? Me deixar perdido? Estão tentando usar ferramentas da narrativa épica, é isso? É esta uma tentativa de cena-não-naturalística?’ Escrevo tudo isso enquanto metade da platéia conversa muito e – atipicamente – alto! - Talvez, (penso) estão se fazendo as minhas mesmas perguntas.
Decido então olhar rapidamente o programa do espetáculo. – Ah, sim! Diz aqui que é uma peça que trata do nordeste. Aqui diz: “drama passional vivido em meio à secura da terra. Duas mulheres que lutam por suas terras, maridos e filhos, numa espiral de vingança e solidariedade, que termina revelando a beleza trágica do sertão.” Bonita. A sinopse. Não há muito que falar sobre esta peça. Mas devo concluir [fazendo minhas] as palavras de um dos personagens: “quem se abaixa demais o cú aparece”, Marfuz!
Espetáculo visto na sexta-feira (5-8-11) no teatro sesc selourinho. salvador- Bahia – Brasil.
ps1: direção de Luiz Marfuz, professor de fundamentos do espetáculo da etea-ufba.
ps2: Lourdes Ramalho é a dramaturga. Dramaturgia, aliás, que lembra muito as peças inconsistentes de Dinah Pereira.
Ps3: poder-se-ia acrescentar ao título do espetáculo: ‘As Velhas... maneiras batidas e pedantes de os pseudo-intelectuais perceberem a cultura nordestina'.
Ps4: ou mesmo poder-se-ia alterar ‘As Velhas’ para o título ‘O Equívoco’. E Camus, que teria homônimo, que me perdoe.
Ps5: ninguém nunca conseguiu me explicar o que é ‘teatro físico’. Será que esse é o nome que alguns dão pra meia dúzia de atores, em cena, se debatendo em violentos espasmos e convulsões?
Ps6: não há dúvida de que Marfuz tem plena consciência que essa abordagem estereotipada do nordeste é um estelionato cultural e artístico. E é evidente que Marfuz conhece e sabe empregar, como poucos, os recursos da cena-não-naturalística e de qualquer outro tipo de teatro. Mas o que mais me espanta é esta rotina que já se estabelece na carreira de tal diretor: ele tem concebido e apresentado, reiteradamente, espetáculos extremamente (eu serei educado) ‘descuidados’ – assim o foi em ‘Policarpo Quaresma’; em ‘Atirem a primeira pedra’, onde ele destruiu Nelson Rodrigues; e agora temos este ‘As Velhas’, que, se certamente for visto por alguém que está indo ao teatro pela primeira vez, fará com que este espectador nunca mais lá volte.
Hedre Lavnzk Couto
p/ Carolzinha.
Mas aquela noite prazerosa, vivida na sala principal do Teatro Castro Alves, ficou no passado. Na noite de hoje estou no Teatro Sesc Pelourinho. Tomo meu assento na platéia. Vai começar ‘As Velhas’. Começa. Como sempre, estou concentrado. Atento a tudo e a todos sobre o palco. O tempo vai passando. E eu observo. E pondero. Observo. E pondero. Sou daqueles espectadores que sempre saem de casa otimistas. Sempre torcendo pela encenação. A cabeça inicia um momento crítico da ebulição. E então surgem as minhas primeiras anotações: ‘Não consigo entender. Que situações são estas em cena? Quem são eles? Onde estão? O que estão fazendo? É este, o objetivo? Me deixar perdido? Estão tentando usar ferramentas da narrativa épica, é isso? É esta uma tentativa de cena-não-naturalística?’ Escrevo tudo isso enquanto metade da platéia conversa muito e – atipicamente – alto! - Talvez, (penso) estão se fazendo as minhas mesmas perguntas.
Decido então olhar rapidamente o programa do espetáculo. – Ah, sim! Diz aqui que é uma peça que trata do nordeste. Aqui diz: “drama passional vivido em meio à secura da terra. Duas mulheres que lutam por suas terras, maridos e filhos, numa espiral de vingança e solidariedade, que termina revelando a beleza trágica do sertão.” Bonita. A sinopse. Não há muito que falar sobre esta peça. Mas devo concluir [fazendo minhas] as palavras de um dos personagens: “quem se abaixa demais o cú aparece”, Marfuz!
Espetáculo visto na sexta-feira (5-8-11) no teatro sesc selourinho. salvador- Bahia – Brasil.
ps1: direção de Luiz Marfuz, professor de fundamentos do espetáculo da etea-ufba.
ps2: Lourdes Ramalho é a dramaturga. Dramaturgia, aliás, que lembra muito as peças inconsistentes de Dinah Pereira.
Ps3: poder-se-ia acrescentar ao título do espetáculo: ‘As Velhas... maneiras batidas e pedantes de os pseudo-intelectuais perceberem a cultura nordestina'.
Ps4: ou mesmo poder-se-ia alterar ‘As Velhas’ para o título ‘O Equívoco’. E Camus, que teria homônimo, que me perdoe.
Ps5: ninguém nunca conseguiu me explicar o que é ‘teatro físico’. Será que esse é o nome que alguns dão pra meia dúzia de atores, em cena, se debatendo em violentos espasmos e convulsões?
Ps6: não há dúvida de que Marfuz tem plena consciência que essa abordagem estereotipada do nordeste é um estelionato cultural e artístico. E é evidente que Marfuz conhece e sabe empregar, como poucos, os recursos da cena-não-naturalística e de qualquer outro tipo de teatro. Mas o que mais me espanta é esta rotina que já se estabelece na carreira de tal diretor: ele tem concebido e apresentado, reiteradamente, espetáculos extremamente (eu serei educado) ‘descuidados’ – assim o foi em ‘Policarpo Quaresma’; em ‘Atirem a primeira pedra’, onde ele destruiu Nelson Rodrigues; e agora temos este ‘As Velhas’, que, se certamente for visto por alguém que está indo ao teatro pela primeira vez, fará com que este espectador nunca mais lá volte.
Hedre Lavnzk Couto
p/ Carolzinha.
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